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Régis Barros: Medicina além de mercadoria

Os tempos são cruéis. Eis que se abre um novo paradigma para a medicina. Antes, ela, considerada uma arte, tinha como proposta uma relação médico-paciente duradoura e estruturada. Essa relação, nesse formato, fazia toda diferença.

Independente do acometimento de saúde pelo qual sofre o paciente, se a relação com o paciente for ética, afetuosa, técnica e acolhedora, os diversos resultados terapêuticos são infinitamente melhores. Mesmo assim, a nossa medicina vem caindo num descrédito sem igual.

E qual seriam os motivos?

Para mim vários, mas, nesse pequeno artigo, focarei um deles – a medicina como produto de mercado. Sempre que isso acontece, a medicina fica empobrecida e enfraquecida. Entendo que todos nós, médicos, temos as nossas necessidades que demandam custos. Não vivo noutro realidade! No entanto, não posso deixar de refletir os rumos da medicina e da relação com o paciente. A medicina, enquanto arte e ciência, tem dificuldade de se adaptar ao volume intenso de pacientes, a quantidade descomunal de procedimentos e a superficialidade das relações estabelecidas. Quando isso ocorre, a medicina vira produto e o médico um mero prestador de serviços.

O resultado de tudo isso não é difícil de prever – uma medicina como mercadoria e um médico que vende produtos. Consequentemente, a medicina deixa, muitas vezes, de ser analisada sobre o crivo da ética e da deontologia para ser avaliada pela égide de códigos de defesa ao consumidor. Da mesma forma que você compra uma TV e reclama ao PROCON, quando ela está com defeito, a medicina caminha para tal.

Se a relação com o paciente é pobre em sua essência médica, esse mesmo paciente só desejará uma coisa: resultado. E faço uma ressalva de que esse resultado estará ligado às expectativas dele. Mesmo que o resultado seja satisfatório, as expectativas do paciente, por diversos motivos, podem não ter sido alcançadas. Daí, a medicina produto e o médico prestador de serviços serão julgados sem nenhum respaldo da medicina-arte.

Esses são os novos tempos da medicina a qual vem, lamentavelmente, se empobrecendo. É verdade que convênios exploradores, exames em excesso com passivos de ganho e volume inviável de consultas e de procedimentos podem trazer lucros, todavia haverá um afastamento da real medicina. Qual o caminho que a medicina e os médicos deverão escolher? Somente o futuro nos mostrará. Espero muito que a medicina romântica de outrora possa tocar a medicina moderna e tecnológica de agora.

  • Régis Eric Maia Barros
Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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