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Régis Barros: A mudança no correr

Quando crianças, nós corríamos alegres e sem pressões. Corríamos a esmo e no intuito de nos sentirmos livres. Corríamos a ponto de topar e machucar os dedos, mas isso não importava, visto que, corríamos com prazer. Quando crianças, o nosso correr não era controlado pelo tempo. Quando crianças, a nossa corrida era, ao mesmo tempo, concreta, pela movimentação muscular, e abstrata pela liberdade pura do correr. Ao correr, como era bom se cansar durante a infância. Como nos faz falta esse tipo de corrida. Os anos passam e a idade adulta chega. Com ela, as responsabilidades saltam e o mundo nos cobra na necessidade de sermos adultos responsáveis. Daí, não se corre mais. Ou melhor, a “corrida” é diferente. Ela deixa de ser lúdica para ser rígida e controladora. A corrida do adulto não é com as pernas livres, como era na infância, mas sim é uma corrida da falta de tempo. O tempo é esguio, inclusive para si. Os adultos “correm” demais e não correm nada. Explicarei! Ao crescer, não temos tempo para nada (“correria” do adulto) e já não podemos aproveitar o tempo com as corridas puras e características da nossa infância (o “correr” das crianças). Quanta diferença nesses atos de correr! Nós deixamos um pouco de lado aquilo que tanto nos fazia felizes. Não eram riquezas e muito menos prestígio, pois a felicidade estava vinculada no ingênuo e no pueril. Sem notar, há um embrutecer. Percebem que não corremos mais! É isso mesmo, nós nos embrutecemos. Por isso, na minha casa, ao ver meus dois filhinhos (Léo e Ben) correndo, eu babo de felicidade e, por vezes, me pego a correr com eles. Eu corro meio desengonçado, mas procuro correr. Não posso deixar isso se apagar de mim. Nós, adultos, vivemos “correndo” do ponto de vista metafórico e, portanto, sempre estamos cansados. As nossas correrias de adulto nos deixam irritados e pouco acessíveis. Acabamos por nos transformar em seres piores. Involuímos e nos transformamos em seres ranzinzas. Perdemos muito quando deixamos nossa criancice para trás. Como eu tenho saudade das corridas da minha infância…
(*) foto onde Léo e Ben alimentam os gansos no Parque da Cidade (Brasília/DF) após terem corrido por toda tarde

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, escritor e Membro do Movimento Médicos pela Democracia

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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