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Presídios e a guerra às Drogas. Por *Régis Barros

Certa vez, eu, psiquiatra-perito de um Tribunal Federal, realizei uma perícia psiquiátrica numa instituição prisional. Essa vivência permitiu que eu confirmasse aquilo que já suspeitava – ninguém é ressocializado naquele ambiente.

Um amontoado de pessoas em condições de total abandono. Um odor pútrido que incomodava constantemente. Espaços superlotados impedindo a deambulação. Imagine para dormir! Alguns poderão dizer que não se deve propor luxo para essa clientela em face dos crimes cometidos por ela. Mas, quem disse que estou falando de luxo? Estou descrevendo dignidade a qual seria fundamental para a recuperação de quaisquer pessoas desviantes. Essa dignidade só seria alcançada com atividades sócio-educativas e o mínimo de respeito ao ser humano, mesmo que sejam criminosos.

Para piorar esse cenário de caos, observamos que a guerra às drogas responde por uma proporção considerável de detentos. A postura meramente repressiva e de combate ao tráfico não trouxe, até os dias de hoje, nenhum resultado satisfatório. Como conseqüência dessa cruzada contra as drogas, temos uma violência disseminada e crescente a qual responde por mortes precoces de jovens, inocentes e policiais. O ser humano mantém o uso de drogas, mesmo elas sendo proibidas pelo Estado. Isso é claro, notório e concreto. Nós, humanos, somos assim e se, porventura, não tivermos uma motivação cognitiva, afetiva e psicológica, que nos afaste da vinculação com as drogas, certamente, nós a usaremos. O usar não será coibido ou impedido pela proibição. Leis positivadas, punições e operações policiais não afastam nem impedem as pessoas de usar qualquer droga. Quando se quer e se deseja, o uso é uma conseqüência espontânea. A regulamentação e legalização de algumas drogas pelo Estado precisam ser mais debatidas.

O dia a dia confirma isso e o olhar obtuso do Estado não permite uma reflexão e execução de políticas públicas para o combate ao narcotráfico e ao consumo de drogas. Se a sociedade não se atentar para essa questão, pode-se criar um número excessivo de presídios que nada será resolvido. Eles continuarão lotados e, mesmo assim, continuaremos reféns da violência.

O barril de pólvora dos presídios explodiu, porém teimamos em não notar. Massacres e corpos degolados representarão somente o começo. Não se resolve a violência hipertrofiando, somente, a repressão. É preciso muito mais! Infelizmente, banhos de sangue ainda acontecerão.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em Saúde Mental e Membro do Movimento Médicos pela Democracia 

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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