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Há amor num manicômio? Por Régis Barros

Essa temática repete-se nas minhas reflexões sobre o mundo. Portanto, os manicômios, sua história e o olhar conservador do momento, que tenta revalorizar os macro-hospitais psiquiátricos, estimulam-me a defender o oposto dessas convicções. Nessa nova ordem do mundo, onde o amor é volátil, urge refletir sobre ele, visto que, nós, humanos, podemos ser perigosos.

Essa minha reflexão será iniciada com a citação do livro “Do Amor – uma filosofia para o século XXI” do filósofo Luc Ferry. Nessa obra, podemos perceber que caminhamos, nas décadas anteriores, numa tentativa de desconstruir o que é sensível no homem. Desse modo, de forma empobrecida, acabamos por neutralizar a sensibilidade do ser humano a qual é a responsável pela propagação do amor – o sentimento mais nobre da nossa espécie. Para esse filósofo, tal jornada representou um “terrorismo da desconstrução”, pois desconstruímos a sensibilidade que tanto nos faz diferenciados. Nós nos tornamos homens bombas capazes de explodir outros tipos de explosivos que não necessitam de pólvora – os explosivos da frieza e do embrutecer. Aqui, os manicômios se estabeleceram e se propagaram. Nesse contexto, era “normal” que os doentes desprotegidos e desfavorecidos ficassem aglutinados em espaços perversos. Criou-se um senso comum para tal que, infelizmente, foi validado pela sociedade e pelo pensar científico da época. Isso sempre é possível, pois, se a ciência não estiver de mãos dadas com o humanismo, não haverá liberdades e crescimentos, mas sim controle e domínio.

Os manicômios prevaleceram nessa roupagem da história. Ainda bem que, gradativamente, seu cancro foi sendo percebido e a sociedade se viu obrigada a agir contra eles. Eis que, agora, décadas após o olhar reformador da lógica manicomial, cresce uma nova lógica conservadora. A referida lógica propaga que podemos ter espaços psiquiátricos “humanizados” em macro-hospitais cujo volume e isolamento do paciente dão as cartas. Quem entrou num macro-hospital desses sabe que tal bravata é insustentável. Aquilo que na sua essência isola, rotula e exclui nunca vinculará o ato de humanizar. Portanto, a nova perspectiva de Luc Ferry para o imperativo categórico de Immanuel Kant faz todo o sentido. Para Ferry, “deveremos agir de tal maneira que a máxima da nossa ação possa ser aplicada àqueles que nós mais amamos”.

Em outras palavras, se seu filho ou sua mãe estivessem adoentados e necessitassem de uma internação psiquiátrica, você preferiria interná-los num hospital geral ou num “macro-hospital humanizado”? Caso não exista hospital geral disponível, você prefere lutar para tê-los ou se esconder na premissa de que eles não existem? A escolha é nossa!

(*) imagem retirada do livro “Holocausto Brasileiro”

(Autora – Daniela Arbex; Editora – Geração Editorial)

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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