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Régis Barros: Tempos árduos…

Já não é possível pensar e expressar o que se pensa. A não aceitação do outro transcende o discordar para alcançar dimensões do aniquilar. Se você vê o mundo de um jeito “X”, muitos dos que vêem do jeito “Y” te desejarão o mal. Você acaba sendo desrespeitado na sua integridade moral e achincalhado com ironias e agressões.

O mundo moderno e de mídias sociais agravou essa perspectiva que sempre esteve presente no agir humano. No entanto, o dinamismo da informação, sem o crivo ético e da verdade, amplifica esse caos. O resultado é triste evidenciando o que somos. Costumo dizer que nós, humanos, somos seres que agridem. Então, expor sua forma de ver o mundo é arriscado. Um perigo constante existe nessas exposições. Mas, o que seria o certo? Se calar, frente ao risco de se machucar? Eu não creio que isso seja o melhor caminho, visto que, falar é preciso. Expressar suas idéias de forma ética e respeitosa é o correto. Aceitar o contraditório das idéias também se faz necessário. Desde que, ataques pessoais, irônicos e difamatórios não sejam conduzidos. Então, em meio a essa reflexão, o que eu poderia dizer daqueles que desejam o mal e até gozam com a morte de alguém que não o representa ideologicamente? Uma perversão sem igual. Uma perda de humanismo difícil de descrever. Uma ausência de alteridade digna de repúdio. Tripudiar com a dor alheia acaba por nos tornar tão bestiais que é impossível entender como evoluímos enquanto espécie. Mesmo que esse alheio seja alguém do qual não gostamos, essa forma de agir é de tamanha maldade que é impossível aceitar.

Não desejo que a maioria concorde com as minhas idéias e não creio que isso será possível. Sou uma ovelha rebelde e vejo o mundo da minha forma – totalmente à esquerda. Contudo, converso e respeito os colegas e amigos que vivem à direita. Aceito a opinião diferente por mais que não concorde com ela. Sem desrespeitar e agredir o diferente só por que ele é “diferente” do que vejo e do que faço. E o mais importante ainda é que eu não desejo a morte dos líderes de direita e dos seus familiares. Eu, também, não gozo com a morte daqueles que expressam tudo diferente daquilo que vejo e penso. Eu, de esquerda, e você, de direita, não podemos deixar que a intolerância vença e prevaleça.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em Saúde Mental e membro do Movimento Médico Pela Democracia

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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