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Arruda Bastos: Minha mãe é uma santa

Para os católicos, santo é toda pessoa que já está no céu, junto de Deus e que desempenhou uma obra admirável ou cuja vida serve de testemunho. Esse título denota que, além de grande caráter, ela está sempre na graça do divino. A falta desse reconhecimento formal, entretanto, não significa que o indivíduo não tenha qualidades para ser um santo. É como considero a minha querida mãe, uma santa ainda na terra.

Pode ser que alguns dos meus leitores achem que é exagero da minha parte ou muita pretensão minha ser filho de uma santa, mas é assim que eu me considero e sei que muitos, depois do meu artigo, vão se considerar também. A maternidade já é um importante fator que predispõe a esta condição.

A minha querida mãe completou 93 anos de uma bela trajetória de vida, o que não é para qualquer um, principalmente quando com grande lucidez e só apresentando pequenos problemas de saúde inerentes à idade, nada de maior gravidade. É uma benção de Deus para ela e para todos nós.

Minha mãe é católica fervorosa; ela herdou sua fé inabalável e todos os excelentes predicados dos seus pais. Tem uma fé em Deus que comove e move montanhas. Nos momentos de maior dificuldade, sempre recorremos as suas orações e devoção. Digo que na maioria das vezes alcançamos as nossas graças por seu intermédio. Acho que ela tem linha direta com Deus.

Da minha família sou aquele que mais perto esteve de “bater as botas”. Nasci de uma gravidez gemelar, com baixo peso e portando graves complicações de saúde. Fui desenganado por diversas oportunidades e até cheguei a receber a extrema-unção, sacramento que no passado só era administrado “in articulo mortis”. Escapei por um milagre e credito às orações da mamãe.

Outras qualidades marcantes da minha mãe são a paciência, a calma e a mansidão. Não recordo, em toda a vida, que ela tenha perdido a compostura e o recato. Fato que é outro milagre para quem é matriarca de uma grande família de nove filhos, com todos os desafios que a vida impõe no seu dia a dia. Só mesmo uma santa para suportar tanta pressão.

Meus pais foram casados por lindos 58 anos, um exemplo de vida conjugal para toda a família. Papai faleceu em 2001. Ele era um cidadão acima de qualquer suspeita, sério, honesto, trabalhador, fiel, dedicado integralmente aos filhos e à esposa. Devemos uma grande parte do que somos a sua criação rígida e à obstinação que tinha com a nossa formação intelectual.

Voltando para minha personagem principal, lembro de várias frases que ela habitualmente fala: “quem for podre que se quebre”; “quem muito se abaixa o fundo aparece”; “quem tem boca vai a Roma” e uma que recordo como se fosse hoje e que repetia sempre que recebia das amigas informações de que papai andava muito arrumado e charmoso, ela dizia “o importante é que eu sou a preferida e a matriz”. Até aí ela é uma santa.

Lembro que, nos momentos do orçamento apertado, ela colocava a mão na massa e com sua máquina Singer Zig Zag automática, uma novidade na época, tecia lindas peças que encaminhava para serem comercializadas no Rio de Janeiro, garantindo assim uma renda extra. Nunca se desesperou e mesmo nas dificuldades sempre manteve os filhos nas melhores escolas da nossa capital.

Minha mãe é uma santa e, para mim, é a melhor do mundo. Se meu leitor não tem o mesmo sentimento pela sua, é hora de refletir e procurar ver onde foi que você errou. Ainda é tempo de uma aproximação e reconciliação. Para ajudar, inspirado na minha mãe, cito “Confia no Senhor de todo o teu coração, e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas”. Provérbios 3:5-6.

Para concluir e cantarmos juntos, lembro agora das comemorações do dia das mães e da letra da música que entoávamos alegremente: “Ela é a dona de tudo / Ela é a rainha do lar / Ela vale mais para mim / Que o céu, que a terra, que o mar / Ela é a palavra mais linda / Que um dia o poeta escreveu / Ela é o tesouro que o pobre / Das mãos do senhor recebeu / Mamãe, mamãe, mamãe / Tu és a razão dos meus dias / Tu és feita de amor e de esperança / Ai, ai, ai, mamãe! / Eu cresci, o caminho perdi / Volto a ti e me sinto criança / Mamãe, mamãe, mamãe / Eu te lembro o chinelo na mão / O avental todo sujo de ovo / Se eu pudesse eu queria outra vez, mamãe / Começar tudo, tudo de novo”.

Arruda Bastos é médico, professor universitário, escritor, radialista, ex-secretário da saúde do Ceará e um apaixonado pela sua santa mãe.

Foto: Clarisse Machado

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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