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Arruda Bastos: Uma mulher muito além do seu tempo

Na minha fase light e família, passei a escrever sobre lembranças que tenho da infância e de personalidades que me marcaram muito. Uma delas, que desejo homenagear no seu natalício, é, sem dúvida, uma das mulheres mais extraordinárias que conheci e um exemplo para todos. Refiro-me a minha querida avó, Noemy Távora Arruda.

As primeiras lembranças que tenho da protagonista desta crônica são oriundas das histórias que minha mãe contava quando eu era ainda muito criança. Ela falava, emocionada, dos seus pais e de como eles se conheceram. Não deixava de realçar o fatídico acidente de bonde que vitimou meu avô e a influência que o fato acarretou em sua vida. Ele era noivo e seu noivado foi desfeito depois que teve de amputar uma das pernas em consequência do tratamento.

Quis o destino que minha inspiração conhecesse seu grande amor depois desse trágico acontecimento. O meu avô estava à procura de um novo bem-querer e de reconstruir sua vida, agora como portador de necessidades especiais. Imaginem o que ele passou depois dos traumas sofridos. Dificuldade de locomoção e recuperação do desenlace amoroso. Foi nesse clima que surgiu a figura da minha heroína.

A romanesca história de amor teve início assemelhado aos filmes hollywoodianos, com um simples olhar, coração batendo forte, rubor e palpitação: foi amor à primeira vista. O feliz casamento perdurou por profícuos 62 anos, quando o destino os separou no auge da sua lucidez aos 89 anos. Viveram um casamento santo, como em Mateus 19:6 “Assim, eles já não são dois, mas sim uma só carne. Portanto, o que Deus uniu, ninguém separa”.

Mas a minha crônica não é sobre o belo casal que eles formavam, tampouco sobre as qualidades do meu avô, que eram inúmeras. Não poderia, entretanto, deixar de abordar fatos que estão ainda hoje indeléveis na minha memória e no meu coração e que logo de início demonstram três das maiores facetas dessa mulher inigualável que são a sua fé, força e personalidade.

A história da humanidade está marcada por personagens femininas que, na sua época, destacaram-se pelo destemor e posições muito além do seu tempo. Considero que minha protagonista é uma delas. Pois, antes mesmo da emancipação de mulher, ela já ocupava lugar de destaque na sociedade com atitudes independentes, trabalhando, amando a política e administrando sua vida com altivez. Uma verdadeira líder.

O exemplo de mulher que ela deixou para a família e para todos que a conheciam vai muito além do que se pode imaginar. Nos 28 anos que convivi com seus ensinamentos e sua postura retilínea, formei o conceito que exponho nessa singela homenagem. Nesses anos, passei de neto carinhoso e atento a médico nos seus últimos anos. Tenho belas lembranças dos diálogos e da forma como ela encarava o mundo e seus desafios.

Era marcante também a sua religiosidade e devoção a Deus. Filha de Maria, era assídua nas obras sociais, nas missas e confissões. Recordo com ternura das férias no seu casarão, das primeiras sextas-feiras do mês, sem falar nos domingos que sempre começavam com a Missa cedinho na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Palma. Devo, sem dúvida, uma grande parte da minha formação católica a ela e a minha santa mãe.

Como profissional dos correios, era de grande eficiência e se destacava no meio da maioria masculina. Tinha opiniões firmes em todos os temas e, principalmente, na política da época. Era esposa dedicada e tratava com grande ternura o meu inesquecível avô. Recordo do desfilar do casal diariamente da sua residência ao banco que ele gerenciava. Era um momento ímpar e literalmente parava o quarteirão da Rua Sete de Setembro.

Tem um ditado que diz: “atrás de um grande homem tem sempre uma grande mulher”. Hoje não considero a frase correta. Já alterei para “ao lodo de uma grande mulher sempre existe um grande homem”. Minha avó, em todos os momentos da sua vida, transpirou sabedoria, inteligência, carinho e amor para com a família e todos que tiveram, como eu, a felicidade de conhecê-la. Que o seu exemplo possa inspirar todas as mulheres, principalmente aquelas que ainda hoje encontram-se submissas a uma sociedade machista e discriminatória.

Arruda Bastos é médico, professor universitário, escritor, radialista, ex-secretário da saúde do Ceará, um dos coordenadores do Movimento Médicos pela Democracia e um defensor intransigente da igualdade de gênero.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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