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Como manter a mente sã nesse mundo doente?

O mundo está adoentado. Não há dúvidas nisso. Para confirmar essa constatação, basta viver. Cito uma querida terapeuta, que me analisou com muito carinho por muitos anos. Segundo ela: “tudo é possível em se tratando do ser humano”. Isso é a mais pura verdade. Somos capazes de tudo. Por incrível que pareça, não há bizarrices quando lidamos com os humanos. Talvez, o “normal” e o “anormal” sejam definidos, somente, pelo o que é habitual e convencional.

As doenças do mundo são produtos exclusivos da nossa espécie. Nós, humanos, as produzimos. Os atos desviantes e eticamente questionáveis fazem parte da rotina humana. Por mais que tenhamos capacidades de produzir belas coisas, a nossa raça acaba por matar, roubar, enganar, excluir, perseguir, corromper, escravizar e aniquilar. Esses comportamentos eliminam sonhos e são responsáveis por gerar muita dor. Tais dores sufocam a humanidade. Ao colocarmos o “pé para fora do nosso refúgio”, todos nós nos deparamos com essa realidade. Ao ler os jornais e assistir a televisão, confirmamos essa situação. Tudo está escrachado. Basta querer enxergar.

E se tivermos uma sensibilidade apurada para essa percepção? E se alcançarmos o entendimento de que cada vez mais esse mundo não tem mais tratamento? Como poderemos viver?

Eis uma vivência complicada – ser são ou ter uma mente sã em meio ao caos da doença do mundo. Cada vez mais que hipertrofiamos a nossa sensibilidade e o nosso conhecimento, temos o risco de nos machucar em progressão geométrica. Portanto, por mais que seja libertador, conhecer e filosofar pode causar dores. Entender e abstrair sobre o mundo e suas relações humanas pode machucar horrores. Cito o escritor, semiólogo, lingüista e filósofo Umberto Eco. Segundo ele, “a filosofia é o conhecimento da dor”.

O que devemos fazer, então?

Devemos nos manter na penumbra de modo que não tenhamos conhecimentos, escondendo-nos da verdade? Ou devemos mergulhar no conhecer mesmo que a dor da verdade lateje?

Para mim, o melhor caminho não é o de abdicar conhecimento. Acredito que o conhecimento é capaz de nos tornar maiores, porém precisamos lidar com os infortúnios que o ato de conhecer causa. Para lidar com um mundo doente sem adoecer, precisamos mergulhar em nós mesmos, pois, somente assim, elaboraremos a dor e conheceremos mais.

Parece louco, mas a análise é dual. Umberto Eco cita que o conhecimento causa dores, mas a dor é capaz de nos levar a conhecer mais, visto que, ela nos provoca. Por isso, a escritora e a filósofa Simone Weil concluiu que “a dor é a origem do conhecimento”. Desse modo, para lidar com a dor do mundo doente, precisamos conhecer cada vez mais e, por conseguinte, aprofundar a própria dor que acabará por nos trazer novos conhecimentos. Esse espiral ontológico, ao ser conduzido para dentro de nós, possibilitará um reconhecimento e um reposicionamento de nós mesmos dentro do mundo. Daí, poderemos concluir que, apesar de estarmos dentro desse mundo doente, não fazemos parte dele. Em outras palavras, ele não nos pertence e não pertencemos a ele.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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