Home > Colunistas > A minha e a sua (a nossa) maldade. Por Régis Barros

A minha e a sua (a nossa) maldade. Por Régis Barros

Hoje, nas minhas leituras e estudos filosóficos, aprofundei conteúdos sobre a Teodiceia, ou seja: o estudo de Deus usando como referencial a experiência do sofrimento humano, a dor e a existência do mal nesse mundo.

É inevitável pensar que o mal está presente na nossa realidade e convive, eventualmente, com nós mesmos. Esse mal chega vestido de sofrimento e tristeza (malum physicum) ou de pecado e desvio moral (malum morale) ou de finitude temporal humana e de carência de conhecimento (malum metaphysicum) ou de injustiça e banalização da vida e do ser humano (malum socio-politicum). Esse mal é poderoso. Em face dele, nós nos apegamos, firmemente, no ato de crer. Ressalto que o crer e o saber são “irmãos”, que brigam entre si, mas que necessitam um do outro. Por mais que o saber seja apurado e diferenciado, ele nunca aniquilará a crença e seu ato de crer. Cito Kristeva que de forma brilhante nos convidou a pensar afirmando que “o saber pode desconstruir o crer, mas não pode existir sem o crer”. Complemento esse raciocínio com a reflexão do famoso psicanalista Carl Jung que nos alertou que “o crer não pode ser anulado, mas, somente, sublimado”. Por isso, é arrogante e inadequado querer derrubar a fé e a crença. Se houvesse um jeito de realizar esse (des)serviço, estaríamos fornecendo à maldade o passaporte da vitória. Seria o fim de tudo e de todos nós, visto que somos deveras maus.

Diante de tanto mal, resta-nos, portanto, crer numa bondade capaz de aniquilar ou reprimir essa maldade. Inclusive, capaz de fazer frente ao nosso mal – o meu e o seu. Essa descoberta sobre o nosso próprio mal pode incomodar, contudo, como pensado por Claude Guillebaud, “o mal está irredutivelmente em nós”. De forma mais profunda, Morin complementou da seguinte forma: “há no ser humano uma formidável proliferação de maldade, de vontade de fazer o mal e de ter prazer em fazer o mal. Esse mal do ser humano sobre o humano vem do ódio, da incompreensão, da mentira e é alimentado pela barbárie do espírito. É produto da crueldade subjetiva do ser humano que se origina, em parte, do seu fechamento egocêntrico”.

Em suma, a maldade lateja em todos nós e precisamos freá-la custe o que custar. O mal não desaparece. Ele adormece e fica quiescente. Por esse motivo, precisamos impedi-lo de vencer. Uma tarefa árdua e continua, todavia mais do que necessária. Uma atitude vital. Sem isso, sucumbiremos ao mal e, infelizmente, ao nosso próprio mal. Em Romanos 7:19, isso já foi alertado – “por que não faço o bem que quero fazer e acabo por fazer o mal, que tanto detesto e que não quero fazer”? Algo interessante para se pensar. Será que isso acontece conosco? É possível que sim! Portanto, precisamos valorizar o nosso bem e isolar o nosso mal. É um papel nosso…

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *