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Régis Barros: O caos é a nossa verdade

Em situações de caos social, os extremos e as posições extremistas ganham espaço. Isso é natural e espontâneo. É, assim, que a nossa sociedade vem vivendo. Padecemos com estatísticas de guerra civil. Morre-se muito! Mata-se por tudo e de forma banal! Não saberemos se, amanhã, estaremos vivos.

Diante dessa triste realidade, surgem os opostos que pensam de forma tendenciosa. De um lado, nós temos aqueles que afirmam que todas as ações policiais são desastrosas e, do outro lado, nós, também, observamos aqueles que apóiam todas as truculências e abusos de algumas operações policiais. Em nenhum momento, paramos para pensar no que se passa e, mais importante ainda, que o modelo atual é ineficiente.

Pois bem, durante todos os dias, pessoas estão morrendo. Policiais são mortos, inocentes são mortos, jovens perdem a vida, velhos estão morrendo, mulheres e, até, crianças são vítimas. Um fenômeno geral, visto que se morre no morro e na periferia, mas também no “asfalto” e nas regiões nobres das cidades.

Diante disso, a dicotomia surge e o maniqueísmo prospera. Ou seja, o discurso traz a necessidade de proteger, de fato, os direitos humanos e traz, também, o desejo de uma ação mais ostensiva e uma justiça mais punitiva. Entendo ambos os argumentos e até os aceito, contudo isso é muito pouco diante desse caos.

Será difícil de perceber que esse modelo que usamos é cafona, descabido e ineficiente? Será difícil entender que esse modelo não está dando certo? Muito dinheiro é queimado com essa repressão maluca. Acontece uma guerra às drogas capaz de matar mais do que uma guerra civil e discutimos essas questões de forma tosca e obtusa. Há um obscurantismo que causa espanto. De maneira reducionista, a sociedade brasileira vai negando a realidade. Os ciclos produtivos, corruptos e dissociais do tráfico de drogas transcendem ao mero “avião” da entrada dos morros e das “bocas de fumo”. Não querer enxergar isso é cegueira. Acreditar que as “megas” operações policiais são capazes de inibir ou até barrar essa cadeia de produção é, no mínimo, inocência.

Cenas que mostram policiais matando e morrendo ainda vão se repetir. Precisamos mais do que nunca discutir e amadurecer as políticas públicas sobre drogas, bem como as suas devidas legalizações e regulamentações. Fechar os nossos olhos para isso causará um custo que, infelizmente, ainda determinará muitas mortes. Que amanhã, eu e você possamos estar vivos…

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental e Membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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