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Régis Barros: Sucesso ou fracasso?

Os fracos e os que precisam demonstrar força se prendem no dualismo da “vitória” e da “derrota”. Fazem de tudo uma competição onde os seus desejos e as suas vontades psicológicas são usadas como impulso de torcida. Ou seja, as pessoas atuam dizendo que algo é um “sucesso” ou um “fracasso” pela ótica contaminada das suas perspectivas psicológicas. Em outras palavras, o torcer e a paixão cegando uma análise mais profunda.

Ontem, um amigo próximo, que pensa, diametralmente, oposto a mim, questionou-me: “amigo, como você participou de uma Greve dessas cujo resultado foi um “fracasso”?

Compartilho, em texto, a minha resposta.

“Querido amigo,

Primeiro, há de se analisar o que você julga ser “sucesso” ou “fracasso”, pois o seu desejo de que tudo tenha sido um fracasso pode te levar a uma análise nessa perspectiva. Eu não venho querer te confrontar dizendo que foi um “sucesso”, porque, se assim o fizer, eu me aproximarei da pobreza de perspectiva de análise que te fez questionar-me dessa forma. Para mim, o movimento grevista foi ótimo e a prova disso foi que você e vários outros, que pensa semelhante, pararam os seus tempos de vida para ficar torcendo pelo suposto “fracasso”. Isso mostra que o objetivo da greve foi alcançado – fazer com que essa sociedade pare e pense. Essa sociedade é composta por trabalhadores, tais quais nós dois, querido amigo. Nós, eu e você, sentiremos, em algum momento, os direitos retirados e negados. Contudo, meu irmão, o que fazemos é repartir. É isso que eles querem! Eles desejam que a sociedade, em sua maioria composta de trabalhadores, pense, falsamente, que é rica e detentora das riquezas. Juntos, nós sofreremos isso, meu amigo. Você e eu e muitos outros. A verdade é uma só: a nossa sociedade está esquizofrênica, portanto o nosso pensar está repartido e fragmentado. Tu julgas o “sucesso” e o “fracasso” por aglomerados de pessoas os quais, diga-se de passagem, aconteceram, mas não são oportunamente destacados pela imprensa. Eu julgo de outra forma. Eu penso que o “sucesso” acontece quando os objetivos são alcançados e quando eu, agente do movimento, sinto paz no meu coração. Para mim, os objetivos foram mais do que alcançados, pois mostra que o povo tem um poder sem igual e, mais cedo ou mais tarde, esse poder será despejado nesse governo escroto e nesse Congresso Nacional canalha. Mas, para finalizar, eu afirmo a ti que o maior “sucesso” é sentido por mim e dentro de mim. Esse é o maior sucesso, meu amigo, visto que, quando você faz aquilo que julga o correto, você pode fazê-lo sozinho e, mesmo assim, será um vitorioso. Assim, eu me senti e olhe que não fiz isso sozinho, pois milhares de pessoas também fizeram nesse Brasil afora. Se eu estivesse sozinho na Esplanada dos Ministérios, eu estaria feliz. Sentir-me-ia feliz por ter sido corajoso. Lutar pelo que você sonha e pelo que você acha justo e certo é um “sucesso” incapaz de dimensionar, querido amigo. Lutar pelos trabalhadores, ou seja, a maioria de nós, independente de vertente ideológica, não tem preço. Isso é mais do que “sucesso”. Chegar à minha casa e olhar para minha família, depois disso, faz-me refletir que eu não preciso do seu júbilo de análise para o “sucesso” ou “fracasso”. Eu tive sucesso e o meu movimento também. Espero te ver, ao meu lado, nos próximos movimentos de rua. Estamos do mesmo lado! Eu e você somos trabalhadores e não devemos pagar esse “pato”, amarelo ou não…rsrsrsrs”

* a foto em anexo representa muito bem esse texto e foi tirada por mim assim que adentrava no Eixo Monumental da Esplanada dos Ministérios. Eu comigo mesmo e com os meus sonhos de buscar aquilo que julgo o correto.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra e membros o Movimento Médicos pela Democracia.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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