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Régis Barros: Raiva desmedida

Raiva desmedida

Sempre que a raiva impera, a razão perde espaço. E se isso acontece, não há possibilidade do dialético. E sem dialética, não há o que fazer, visto que os que se percebem “certos” estarão, na sua forma de pensar, sempre certos.

Assim, vivemos por aqui. Desse jeito, caminhamos nas terras tupiniquins. Eu, que sou de esquerda e que continuarei a ser, vejo isso no meu dia a dia. E olhe que sou “safo”, como se fala na gíria popular. Tenho habilidades sociais trabalhadas, inclusive, pela minha atividade profissional que me protege de agressividades e do ódio produzido pela raiva de muitos.

O interessante é que se formos analisar quais são os motivos dessa raiva de muitos dos “raivosos”, não encontraremos uma gênese. Em grande parcela desses atores raivosos, a raiva nasceu no senso comum. A raiva transcende uma perspectiva ideológica para ser mera condição vendida e herdada pela mídia e, também, propagada pelos grandes grupos que buscam comandar a economia.

Por detrás da propagação da raiva social e da presunção de culpa, há interesses. Há, sim, um jogo de possibilidades e, através dele, poucos lucrarão, pois o povo mais desprotegido não ganhará nada em troca. E o mais louco é perceber que essa raiva é tão desproporcional que mostra a própria fragilidade da sua essência. Sempre que temos um sentimento exagerado e desproporcional sobre algo, precisamos estudar o que está por detrás do fenômeno. Geralmente, os opostos psicanalíticos estão bem próximos e a demonstração externa de um dos pólos, na verdade, tenta esconder ou falsear a presença do outro. Portanto, de mãos dadas encontramos prepotência/impotência, arrogância/fraqueza e raiva/submissão.

Desse modo, a raiva reinante sobre um modo de ser e de pensar, justificada por argumentos “pseudológicos” e “pseudocoerentes”, esconde outras coisas. Essa raiva contra a esquerda e contra o PT tem um pouco disso. Aqui, eu não estou escrevendo para defender quem comete ilícitos, todavia é muito pouco produtivo achar que os ilícitos dessa nação doente são produtos exclusivos da esquerda e do PT. Aqui, eu não estou escrevendo para defender algum réu de processo, mas é empobrecedor não querer enxergar os caminhos midiáticos e judiciais para usufruto da política.

Daí, a grande possibilidade de se ter um pensamento único, a despeito de ideologia, se perde. Em outras palavras, a voz da sociedade é volátil. Em meio a essa dicotomia promovida pela raiva, os reais perversos vão manipulando e manobrando. Eles vão usando disso (a raiva inconteste) para dizer que a “culpa” é produto de alguém específico ou de um grupo solitário. Por fim, eles ganham o jogo. Eles ganham com gols “previdenciários”, “trabalhistas”, “banqueiros” e de diversas outras natureza. Nós, povo, levamos esses gols em sequencia.

Esse é o padrão da manipulação. O empírico que cegou a capacidade de abstrair. O desproporcional que não cede a uma argumentação adequada. Nessa estrada, os jogos políticos são tramados e encaminhados. Ao final, perdemos de goleada.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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