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Régis Barros: Eu não tenho culpa, votei em fulano…

A história é capaz de explicar e iluminar. Por isso, ela é tão importante. Ela nasceu de mãos dadas com a filosofia. No berço do saber grego, ela, junto da filosofia e da política, fomentou o conhecimento humano. Aquilo que é marcado na história não se apaga, pois sua leitura e releitura são constantes. A história conta e reconta os fatos. Ela é capaz de mostrar quais foram os nossos posicionamos frente às grandes questões em que fomos demandados. O que foi escrito não pode ser apagado. O que foi marcado na linha histórica sempre será lembrado.

Se isso acontece no individual, imagine no coletivo? Se há uma responsabilidade particular na construção da história, imagine para as instituições que representam uma coletividade? Por esse motivo, eu sou, absolutamente, contra que instituições de classe ou de categorias profissionais declarem apoio institucional à candidatos e/ou políticos. Independente de qual seja o candidato ou legenda, esse apoio é um importante equívoco ético.

E por que é equivocado?

Por vários motivos, mas citarei, somente, dois.

Primeiro, por que qualquer instituição de classe ou de categoria profissional representa uma coletividade pensante a qual é composta de vários olhares ideológicos e políticos. Todos esses olhares precisam, democraticamente, de respeito e aceitação. Segundo, por que essas instituições,  eticamente, nunca podem vincular o seu nome e a sua história a qualquer político. A história de qualquer político, que possa mostrar imoralidades no futuro, marcará negativamente a própria instituição. Enfim, não são funções dessas instituições ou associações o ato de militar em política ou de ligar-se à políticos ou de fornecer comendas ou títulos à políticos. As funções delas são a proteção e a representação dos interesses da categoria e dos associados com a ressalva de respeitar todas e quaisquer opiniões.

Mas, infelizmente, a Associação Médica Brasileira (AMB) cometeu esse equívoco. O vídeo abaixo, datado de 2014, mostra isso. Lembro-me de que, nesse período, eu estabeleci, respeitosamente, contato com representantes da Diretoria da AMB alertando sobre esse equívoco. Nesse contato, eu contextualizei os argumentos demonstrados acima no afã de que algo fosse feito. Defendi que nenhum candidato fosse vinculado em apoio explícito. Defendi que não fosse apoiado candidato A ou B ou C ou D. Alertei que aquilo não poderia ter sido feito, visto que a instituição representava uma coletividade de médicos com pensamentos e escolhas políticas diferentes. Então, não era concebível dizer que “os médicos, em sua coletividade, apoiavam fulano”.

O tempo passou. A história veio falando e contando os fatos. A verdade foi aparecendo. O que foi feito ficou registrado. Daí, a instituição médica, ao se ligar ao político citado no vídeo, não tem como questionar essa minha reflexão. Hoje é um dia que fala para o passado e, ao rever meu email à AMB, tive a necessidade de escrever esse relato.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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