Home > Colunistas > Régis Barros: Marcado na testa

Régis Barros: Marcado na testa

Nos últimos dias, eu me lembrei de um querido professor o qual foi muito importante na minha formação em psiquiatria e psicoterapia. Ele, assim, afirmava: “nada que advém do ser humano pode ser considerado bizarro, pois tudo é possível”. Com essa reflexão, ele tentava provar que o ser humano é capaz de tudo.

Ele estava certo. De fato, nada mais é capaz de me assustar. Nada mais me causa espanto, visto que, enquanto espécie, nós somos aptos a realizar os comportamentos mais dantescos. Inclusive, até mesmo, aqueles que nós julgamos impossíveis de realizarmos.

Recentemente, um jovem foi, brutalmente, torturado com uma tatuagem na testa com os seguintes dizeres: “Eu sou ladrão e vacilão”. Há relatos de que ele tentou furtar uma bicicleta bem como há outras informações de que ele era portador de doença mental ou que era usuário de drogas. Contudo, essas informações são desnecessárias para alcançar o objetivo reflexivo desse artigo.

O fato mais pútrido em tudo isso foi saber que muitos apoiaram essa barbárie. Fazer ou apoiar tal atitude é tão perverso que nos iguala aos próprios criminosos sociopáticos. A falta de remorso frente a isso é algo impactante. Portanto, precisamos analisar essa resposta social de apoio ao bestial. Quanto ódio! Urge a necessidade de entender que não ser condizente com os desvios provocados pela criminalidade não nos dá o arbítrio de sermos monstruosos no agir como resposta.

Quem aceita ou aprova ou apóia tal barbaridade pode ser percebido como um ser perverso. A monstruosidade desse ato é tão aviltante que, ao perceber que muitos aplaudiram, começo a entender que a selvageria vive dentro de nós. Há uma construção justiceira em muitos e isso gera uma necessidade de justiça com as próprias mãos. Em parte, isso nasce da ausência e fraqueza do Estado em nos ofertar segurança, porém, em muitos, ela é autóctone. Nessa onda, teremos pessoas que sempre serão mais poderosas do que outras. Daí, a “falsa justiça justiceira” será feita pelos poderosos. Se você sempre se considera um poderoso, tudo bem. Parabéns e siga em frente. Contudo, acredite em mim: sempre haverá alguém mais poderoso do que você. Caso faça algo errado, torça para ele não ser um justiceiro contigo.

Por fim, fiquei aqui pensando: qual seria a tatuagem que alguém mais poderoso colocaria na sua testa, caso você cometesse algo que ele não gostasse? Como dito pelo vilão Coringa, “sempre temos algo a esconder”.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra e membro do Movimento Médicos pela Democracia

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *