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Régis Barros: Meus pacientes, meus amigos

O médico pode ser amigo dos seus pacientes? Essa é uma pergunta que gera desconforto em alguns profissionais da classe médica. Na verdade, eu mudarei, inclusive, o verbo para respondê-la. O médico não só pode como também deve ser amigo dos seus pacientes. Sempre respeitando os limites éticos e humanistas, o médico precisa ir além da necessidade técnica.
É impossível não brotar sentimentos fraternais numa relação de troca e doação entre duas pessoas. Não adianta, pois medicina é isso – uma troca constante de sentimentos ora felizes, ora tristes. Em assim sendo, o carinho da amizade é o cimento dessa edificação entre médico e paciente. Ambos caminham juntos em estradas pedregosas. Quem poderia fazer isso? A resposta é simples: bons e velhos amigos.
Quem padece busca algo que vai além do tratamento. Quem sofre deseja muito mais do que a farmacopéia. Quem sente dor necessita de perspectivas que extrapolam a analgesia. Assim, é a medicina e, desse jeito, o médico deverá ser e agir. Não há, portanto, nenhum equívoco ético e científico ao afirmar que o médico e o seu paciente precisam estabelecer uma relação, prioritariamente, pautada na amizade. Se essa relação for superficial, não será alcançado tratamento algum. Se essa relação for meramente mercantil, o representante dessa relação, que se intitula médico, nunca exerceu com esse paciente a real medicina.
Por isso, eu afirmo que os meus pacientes são meus amigos e, mesmo sem poder afirmar por todos eles, espero que a recíproca seja igual. Eu exerço a medicina dessa maneira e procuro falar em alto e bom som para os jovens médicos que, sem isso, não haverá medicina. Atrevo-me a afirmar que, se perdermos essa relação fraternal pautada na amizade, nós teremos, somente, interesses consumistas. Consequentemente, a medicina se transformará em produto de compra e venda.
Em tempos de caos e de ódio, a medicina sempre exerceu um papel de vanguarda, todavia, atualmente, ela vem agonizando. Muitos médicos vêm perdendo o fio da meada. Isso traz um ônus percebido no empobrecimento da medicina. Nessa perda de azimute, o futuro é ainda mais assustador, visto que o contingente de médicos cresce em escala geométrica. Esse aumento descontrolado do número de médicos associado ao fato de haver pouco desenvolvimento do humanismo nos jovens médicos leva-me a temer pelo futuro. Com pesar, eu venho percebendo que o médico tem deixado de ser um amigo do paciente para se transformar num produto de prateleira.
Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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