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Régis Barros: Panelas silenciadas

Numa democracia, quaisquer movimentos coletivos que reivindiquem direitos e cobrem os deveres das autoridades são muito bem vindos. Respeitando os princípios éticos e de civilidade, pouco importa, para mim, se a tendência é de esquerda ou de direita. As ruas sempre devem ser um palco dos desejos do povo.  A voz social é escutada e reverberada através das ruas.

No entanto, a história evidencia incoerências nos objetivos de recentes manifestações. Há aproximadamente dois anos milhares de pessoas foram às ruas clamando pelo fim da corrupção, solicitando o fim do PT e pedindo o impeachment de um presidente democraticamente eleito. Preâmbulos com panelaços e “dancinhas” com coreografia chamavam a atenção. Os representantes mais apaixonados do movimento, ligados a grupos políticos e ideológicos da direita, diziam que o “brasileiro, finalmente, tinha acordado”.

O tempo passou. A história, como é de costume, falou e explicitou os fatos. As peças do quebra-cabeça começaram a aparecer e foram desvendando o enigma. Eis que um presidente, recentemente denunciado por corrupção passiva, assume o poder. Eis que seu grupo gestor é composto por políticos atolados em tudo de podre da política. Conforme gravações de um empresário delator, eis que entendemos que se pode comprar silêncio de juízes e promotores. Tudo isso escutado e entendido como normal pelo chefe do executivo. Eis que um senador, que disputou a última eleição presidencial e faz parte da base de apoio do referido governo, recebe milhões e cita algo que nos faz lembrar queima de arquivo. Tudo isso gravado e divulgado para todos que quiserem escutar. Eis que esse presidente, sem aceitação popular, sem popularidade e afundado em denúncias, força a barra para aprovar reformas trabalhistas e previdenciárias estruturantes. Ressalta-se que ele faz isso de mãos dadas aos políticos e partidos que apoiaram os referidos movimentos de ruas. Com que legitimidade e com qual moral isso seria possível?

Diante do caos, não escuto uma panela batendo. Não percebo revoltas ou levantes de pessoas na rua. Não vejo aglomerado de pessoas com a camisa amarela da seleção “canarinha”. Não vejo “dancinhas” acrobáticas e jocosas a favor de um novo impeachment. Na minha prática de psiquiatra e psicoterapeuta, eu aprendi que o silêncio é muito comunicador. Nesse caso, ele comunica horrores! Como dito por um político, “a sangria precisava ser estancada”. Minhas congratulações! Ela foi estancada.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental. Membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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