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Régis Barros: As falas dos Srs. Ministros

Ministros que falam bobagem não são novidades. Aliás, essas situações são regras. No Brasil, para você ser Ministro de Estado, não há a mínima necessidade de conhecer a fundo a pasta que será assumida. Parece, inclusive, que quanto menos souber é melhor. Pois, assim, negociatas e articulações políticas poderão ser feitas sem a mínima angústia de atacar a lógica técnica e científica.

O atual Ministro da Saúde é um desses tipos. Ele incorpora em si tudo que foi descrito acima. No entanto, a minha reflexão nesse artigo objetiva outra análise. As entidades médicas, sem exceção, se manifestaram sobre a fala agressiva que o atual ministro fez sobre a classe médica. Entendo, respeito e concordo com muitas dessas manifestações, contudo há uma reflexão a ser feita: por que a classe médica e a medicina são tão achincalhadas nos dias de hoje? Essa fala despreparada desse ministro representaria uma exceção ou um grande coletivo social pensa do mesmo jeito?

Eis uma questão importante de ser refletida. Por que muitos atores sociais (políticos e não políticos) estão nos atacando, enquanto profissionais médicos, e agredindo a arte médica. Urge a necessidade de analisarmos, também, a nossa formação médica e o quanto nos distanciamos da própria sociedade. Urge a necessidade de analisarmos o número de cursos de medicina que existem e o quanto eles, realmente, formam médicos na verdadeira acepção da palavra. Qual o impacto na nossa aceitação social quando buscamos a todo custo a subespecialização e a medicina, meramente, lucrativa vinculada aos convênios de saúde. Qual será o futuro da medicina e dos médicos quando, por vezes, caminhamos de forma não harmônica com alguns anseios sociais.

O médico medieval e romântico de Noah Gordon, talvez, nunca existiu, todavia ele enchia de desejo e sonhos os olhos dos aspirantes à medicina. Hoje, a realidade é bem menos romântica. Parte disso é culpa do sistema e da estrutura, que envolve também a política, mas outra parte tem participação nossa, ou seja, dos próprios médicos.

Duvido que algum desavisado ministro tentasse atacar algum médico respeitado e envolvido com a sua comunidade. Ao ler a trajetória de Lucano em Médicos de Homens e de Almas, entendi que a “alma”, ou seja, a essência é o que faz a diferença. Enfim, se a medicina retornar a sua essência, é bem possível que as falas dos políticos toscos reverberem menos, pois perderão todo o sentido de acontecer.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental, escritor e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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