Home > Colunistas > Régis Barros: Os Direitos Humanos só protegem bandidos?

Régis Barros: Os Direitos Humanos só protegem bandidos?

Essa é uma fala presente no coloquial da nossa sociedade. Através dela, tenta-se inserir a idéia de que aqueles que defendem essa bandeira só estariam preocupados em proteger criminosos e delinqüentes. Seria isso mesmo?

Claro que não! Defender os Direitos Humanos e Fundamentais não tem nenhuma relação com a defesa de atos ilícitos ou de agressores da ordem. Pelo contrário, a defesa desses direitos é tão universal que várias culturas e países a subscreveram. E por que fizeram isso?

Por que o ser humano tende a ser perigoso e cruel quando extrapola seus limites éticos na relação com o outro. Os exemplos históricos são robustos na confirmação disso. Certamente, o holocausto da 2º Guerra Mundial é o ápice dessa certeza. Se não houver esse alerta e cuidado, a história pode se repetir como sempre se repetiu. A repetição pode ocorrer em situações maiores, tais como aquelas evidenciadas em países extremistas e nas guerras religiosas, mas também podemos percebê-las em situações menores, tais como nas torturas individuais dos mais desprotegidos. Pouco importa se, nessa análise, o torturado é um criminoso ou não. Quando nos colocamos contrários a isso, estamos nos contrapondo ao fato em si e não tomando partido de um lado ou de outro.

Não há possibilidade de flexibilizar essa proteção, pois, se assim o fizermos, daremos àquele, que detém o poder naquele momento, a premissa de flexibilizar também suas justificativas para agredir e machucar quem for desprotegido. A criação desses estratos, conseqüentes a essa flexibilização, é muito perigosa, visto que nem sempre será você que criará a estratificação. Daí, num dia, a depender dos fatos, você poderá ser visto de um lado e no outro dia, ao mudar as perspectivas, poderá ser visto do outro. Tudo dependerá do seu julgador.

Por isso, faz sentido a reflexão: “hoje, foi ele. Amanhã, pode ser você”. Ou seja, apoiar e aceitar, sem incômodos, quaisquer ataques à dignidade da pessoa humana, permite que as truculências, em algum momento, possam ser usadas contra nós mesmos. Alguém pode afirmar que isso nunca acontecerá, pois se percebe ético e nunca se desviará moralmente. Contudo, se você for julgado negativamente por aquele que, circunstancialmente, tem mais poder do que você, o crivo do que é, de fato, ético será relativo. Portanto, abusos poderão acontecer contra você. Os direitos humanos não defendem bandidos! Infelizmente, eles defendem os humanos dos próprios humanos.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *