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Régis Barros: Aposentar ou não, eis a questão…

Claro que a nossa pirâmide etária mudou. Claro que a necessidade de rever tempos, prazos, valores e formas de aposentadoria se faz necessário. Esse é um padrão mundial e seríamos rígidos se não tivéssemos tal discernimento. No entanto, o que acontece aqui no Brasil é digno de filme de terror. O mais louco, nesse enredo, é perceber que os “indefesos” serão comidos vivos pelos lobos monstruosos.

A análise da idade para aposentadoria, por si só, já causa um certo espanto, pois é notório que muitos não alcançarão essa faixa etária. A esmagadora maioria da população não vive como os políticos que são repletos de diversas benesses. Na verdade, o povo rala e sofre para buscar seu lugar ao sol. Consequentemente, esse povo corre atrás e, por conseguinte, se expõe ao mundo. Nessa exposição, muito pouco é ofertado pelo Estado no que tange a saúde e a educação. Muito pouco é garantido pelo Estado no que se refere a prevenção e o tratamento. Então, esse povo, em caso de infortúnios, não terá garantido os seus cuidados em hospitais particulares de ponta, localizados nas grandes capitais brasileiras. Daí, passamos a achar que a expectativa de vida deles alcançará a idade daqueles que possuem uma alimentação, educação e saúde dignas. Ou seja, a mesma expectativa de vida de quem teve mais proteções.

Portanto, questiono:

É justo pensar que um sertanejo do sertão do Ceará ou do Piauí terá que se encaixar absolutamente na regra etária da aposentadoria?

É ético acreditar que um carvoeiro, que trabalha no Pará, viverá igual aos representantes da classe média dos centros urbanos?

É coerente tratar os desassistidos e os miseráveis com essa mesma lógica etária?

Não meus caros! Estamos diante mesmo é de uma lógica perversa que vem usando, como discurso, a fala da proteção coletiva do sistema previdenciário. Não se protege, desprotegendo. Nunca isso pode ser aceito. Nunca isso pode ser defendido. O que todos nós estamos vendo é o corte na pele daqueles que lutam por dias melhores – os trabalhadores. Em nenhum momento, algum político da base desse governo vem a público explicar os motivos de não se cobrar as dívidas bilionárias que grandes grupos empresariais têm em termos previdenciários.

Quando se é vantajoso perdoar, perdoa-se. Enfim, “quem pode, pode e quem não pode, se sacode”. Ou melhor: “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. Nesse sistema de dois pesos e duas medidas, novamente, o povo – maioria de todos nós – perdeu. E, espantosamente, o silêncio impera e se mantém.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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