Home > Colunistas > Régis Barros: Rir para não chorar

Régis Barros: Rir para não chorar

O que acontece no Brasil é surreal. Nem as comédias mais toscas do cinema alcançaram tal nível de bizarrice. Quando observamos o nosso Legislativo Federal, a sensação que emana é de asco. A situação é tão dantesca que, para não chorarmos, acabamos por fazer piada sobre a realidade.

O momento é de luto. Os representantes do povo, destacados na votação do impeachment de Dilma Rousseff e na denúncia de ontem contra Michel Temer, provam o porquê da falência do país. A qualidade deles é tão ruim que fica, inclusive, difícil para filosofar sobre e analisá-los. É triste! Um amontoado de pessoas que fazem negociatas aos olhos nus. Os esquemas correm soltos para todos os lados. Um fisiologismo impregnado. A relação de “compra e venda” escancarada. Figuras estereotipadas com posturas jocosas, teatrais e histriônicas. Um circo de horrores onde o palhaço passa a ser o povo que é co-responsável por tudo isso.

Esse Legislativo atua em articulações diversas. Esses deputados são os responsáveis por determinar o que será da minha e da sua vida trabalhista e previdenciária. Todos nós estamos sendo coniventes. A nossa parcela de culpa só aumenta. Uma alcatéia reunida no Congresso Nacional e tripudiando da nossa cara e nós, povo alheio, observando como se tudo fosse normal. Diante do caos, das falcatruas e do roubo dos direitos, não há levante popular algum. Fica claro, então, que os movimentos de rua da história recente foram, simplesmente, vetores com objetivos estabelecidos os quais pouco a pouco vão se tornando claros. Esse é o enredo – “um grande acordo nacional”.

Os acordos estão sendo muito bem executados. Todos os poderes estão envolvidos. A nação ruiu e nisso vai crescendo a onda dos “salvadores da pátria”. Os políticos de discursos prontos que não são éticos, mas pregam honestidade e coerência. Parte da sociedade passa a falar da Ditadura Militar com orgulho e tentam postular que ela trouxe crescimento e respeito. Um país e um povo, que sofreram anos nas mãos de uma ditadura, pedindo o seu retorno. Muito triste observar aonde chegamos. Imaginem o povo chileno pedindo o retorno do período de Pinochet. Imaginem o povo francês, nos dia de hoje, clamando pelo retorno da monarquia absolutista.

Essa é a nossa realidade. Esse é o nosso calvário. O futuro é nebuloso, pois, diante dessa situação, a esperança vai desaparecendo. Não podemos esperar muita coisa desse Congresso nem do próprio povo o qual é completamente inerte a tudo.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *