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Arruda Bastos: O olhar da minha mãe e a resiliência e frieza das UTIs

Resolvi escrever sobre esse tema depois de semanas de comparecimento frequente às UTIs geral e coronariana do HRU (Hospital Regional da Unimed), em Fortaleza, onde minha mãe de 93 anos de idade encontrava-se internada. Nesta ocasião, e pela primeira vez, tive a dimensão das facetas e da resiliência dos pacientes, profissionais de saúde e familiares.

Resiliência é um termo muito utilizado na física e na psicologia para avaliar a resistência de materiais e de pessoas a determinados acontecimentos. É a propriedade de acumular energia quando são submetidos a situações de estresse e a sua capacidade de voltar ao estado normal ou se adaptar e evoluir positivamente frente a situações difíceis.

Como médico, embora não intensivista, posso falar da dimensão das UTIs para os profissionais de saúde como sendo a última arma, na maioria das vezes, entre a vida e a morte. Esses abnegados profissionais são submetidos a todo tipo de estresse, tanto físicos, com plantões exaustivos, como, e principalmente, psicológicos quando são vocacionados para o seu ofício. Eles, na sua grande maioria, tem uma grande resiliência.

No caso da minha querida mãe, logo que vencidas todas as medidas não invasivas ao alcance dos médicos para a sua recuperação, compartilhando do seu sofrimento com o isolamento e da falta do calor e amor familiar em tempo integral, resolvemos, de comum acordo entre os irmãos, com o beneplácito da médica assistente e após reunião com a equipe da UCE (Unidade de Cuidados Especiais), transferi-la da UTI para o setor de cuidados paliativos.

Digo que foi uma decisão difícil, mas não seria justo que o nosso desejo de prolongar os seus dias de forma artificial e até que o nosso egoísmo ultrapassasse o seu pedido, que traduzíamos nos seus olhos, quando do término das visitas, de ter o aconchego dos entes queridos durante todos os dias que Deus, com sua bondade infinita, ainda poderia lhe conceder. Além do mais, como família de profunda fé cristã, temos convicção que existem lutas que pensamos não sermos capazes de vencer, mas que como temos um Deus que faz o impossível acontecer, sempre temos uma esperança nos Seus braços, mesmo que seja de conforto.

Agora, ela está em um ambiente tranquilo, com o calor dos filhos e entes queridos, sem os gemidos, os bipes dos aparelhos, os fios, a frieza tecnológica e a robotização de muitos que, de tanto lidarem com a morte nas UTIs, muitas vezes deixam de lembrar que somos humanos e que o sofrimento dos pacientes e familiares é imensurável nesses momentos. Foi o que chamei no início da minha crônica de “frieza” desse ambiente. Que tal humanizarmos mais as relações e flexibilizarmos os procedimentos cartoriais tradicionais e normas?

Minha mãe está em um estado de saúde muito grave, é hoje uma tênue chama que teima em não se apagar. Entretanto, os seus olhos não estão mais a suplicar, agora brilham; suas mãos encontram o calor da família que, durante muitos períodos do dia no isolamento, lhe faltava; sua respiração, mesmo difícil, é paradoxalmente tranquila. Em contraste com a UTI, no seu novo ambiente, os únicos ruídos são dos “Pai Nossos” e “Ave Marias”.

Maria de Lourdes, minha mãe, continua sendo acompanhada pela nossa querida geriatra, Dra. Daniele, agora com o reforço da equipe dos cuidados paliativos, dos enfermeiros, dos fisioterapeutas, dos fonoaudiólogos, dos técnicos e de todos os demais profissionais de saúde. Atenção não tem lhe faltado na medida da gravidade do caso.

Vou terminar, pois recebi agora a informação do agravamento de sua saúde. Seu estado é crítico e o tempo que lhe resta é imprevisível. Estamos, apesar de tudo, conscientes que nossa conduta foi correta. Nossa mãe não ficou na UTI além da sua real necessidade. Ela está dormindo o sono tranquilo dos justos; talvez dele não acorde mais e tenha a sua passagem para o lugar definitivo junto ao Pai, com a mesma dignidade que pautou toda sua vida. Como escrevi em outra crônica, minha mãe é uma santa na terra e, no tempo de Deus, será mais uma santa em breve no Céu a interceder por nós.

Arruda Bastos é médico, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e um filho saudoso da sua amada mãe.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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