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Régis Barros: Por que “curar” os gays?

Postulo sempre que o preconceito é uma das dimensões mais perversas e maldosas da raça humana. Não encontramos nas outras espécies, que habitam esse planeta, algum comportamento semelhante. Simplesmente, há uma parcela de pessoas que não aceita, sob seu olhar, aquilo que julga ser diferente. Daí, as crueldades vão surgindo como conseqüência.

O exemplo recente disso é a famigerada “cura gay”. Ou seja, a percepção equivocada e agressiva de que a homossexualidade padece do vício de uma doença. Portanto, o “gay” é um “doente” e, sob essa égide, tem que ser tratado para mudar o comportamento dito “adoentado”. E o mais grave é que o rótulo da “doença” é impetrado com a tirania do preconceito. Na verdade, os defensores da “cura gay” nunca estiveram preocupados com a saúde do homossexual. Isso é um grande embuste. Eles querem mesmo é formatar as pessoas à sua visão de mundo. Uma espécie de eugenia like que não necessita de câmara de gás, mas sim do extermínio do jeito de ser. Como se isso fosse possível! Como se fosse factível moldar o jeito e o funcionamento próprio das pessoas a seu bel-prazer.

Não há cura para a homossexualidade e a resposta disso é bem simples – ela não é uma doença nem um transtorno. O que é doente mesmo é esse olhar preconceituoso. Ele sim é repleto de fel e contaminado pelo pus da insensatez humana. A única doença nisso tudo é a intolerância e a incapacidade de aceitação. Quem é doente, afinal, é aquele que não aceita o homossexual e deseja “transformá-lo” naquilo que ele julga ser o certo.

Acatar esse desmantelo alcunhado de “cura gay” é tão medieval que nos faz pensar nas posturas inquisitórias. É triste perceber que somos julgados constantemente, sobretudo se expressamos algo diferente do nefasto julgador. Nessa engrenagem, o crivo do melhor é estapafúrdio, pois o suposto “melhor” é contaminado pela falsa verdade, projetada pelo cruel julgador. Assim sendo, quem defende que a homossexualidade é uma doença acaba por expor sua impossibilidade de viver com o diferente.

Qual o real motivo de não aceitar os “gays”? Para que queremos “curar” o outro? Tenho amigos e parentes homossexuais e heterossexuais. Você sabe quais sãos as diferenças entre eles – nenhuma. São belos e amorosos. São iguais, pois não há escalonamento quando falamos de amor. Somente quem carece de amorosidade é que costuma escalonar as pessoas em estratos diferentes. O preconceituoso é assim e, infelizmente, busca “curar” o outro.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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