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Régis Barros: A admirável força dos homens e mulheres trans

Como servidor público e perito judicial de um dos maiores tribunais do Brasil (TJDFT), eu me sinto na obrigação de compartilhar essa reflexão. Trata-se da minha experiência ao periciar homens e mulheres trans. Um relato curto com algumas poucas considerações. Por estar sendo uma tarefa gradativa na minha prática de trabalho, eu pude perceber alguns pontos que destacarei a seguir.

A determinação e a força deles são dignas de nota. Isso merece ser ressaltado e, sobretudo, admirado. Imagine você ter que nadar contra uma correnteza forte e agressiva durante uma longa jornada da vida e, mesmo assim, se manter aguerrido no seu propósito. Saliento que tal propósito surge da nobre condição de ser feliz de modo que a felicidade brota e cresce em se perceber e ser como é. Na verdade, essa identificação é algo remoto, portanto isso já acontecia tempos atrás, contudo o freio social e os medos criaram barreiras sólidas e, por vezes, intransponíveis.

Eis que eles lutaram e mantiveram a luta. Uma árdua série de batalhas das quais muitas bem dolorosas, pois ser aceito é algo que requer esforço. Imagine ser aceito com sua nova identidade que se abrirá socialmente e permitirá ao protagonista da mudança a garantia de que se pode e se deve ser feliz plenamente.

Uma aula prática de força pela vida. Um conceito que vai além da ciência. Trabalhamos, arduamente, na clínica psiquiátrica, para estimular vida naqueles que padecem das angústias provocadas pelos sintomas psiquiátricos e pelo sofrimento emocional. Usamos de medicamentos, motivamos mudanças, trabalhamos insights e buscamos novos comportamentos. Às vezes, mesmo nos esforçando muito, não alcançamos o que queríamos – uma busca ativa pela felicidade por parte do paciente.

Por isso, está sendo muito rico perceber essa força vital presente, invariavelmente, em todos homens e mulheres trans que foram periciados por mim até o momento. Algo sublime. A mensagem captada por mim é de que a vida pode ser transformada e que a roupagem da felicidade pode, também, ser conquistada. Que isso é uma busca nossa. Que isso é um atributo, sobretudo, nosso. Que ser feliz e lutar são os vetores mais importantes na vida. Desse modo, o fato de ser protagonista e gozar dessa possibilidade fazem de nós pessoas com vivacidade que não temem as dificuldades. Até por que, se ficarmos presos no temor, nós não viveremos. Eles, os homens e mulheres trans, que sofreram numa linha histórica da vida, provam-nos, que essa vida, a despeito das dores, poderá ser boa. Para tal, precisamos lutar por ela.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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