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Régis Barros: Mas, isso não é arte…

A definição de arte não é algo que permite reducionismos ou arrogâncias de preconceituosos. Você pode até não simpatizar com aquele tipo de arte. Isso é aceitável e respeitável, contudo é impossível afirmar que um espetáculo artístico não é arte, simplesmente, pelo fato de você, crítico, não gostar.

Como bem descrito por Leonardo da Vinci: “a arte diz o indizível; exprime o inexprimível; traduz o intraduzível”. A abstração que a arte traz é capaz de libertar. Cada atividade artística terá seus adoradores e críticos. A arte é uma expressão única para a imparidade de cada expectador. Então, o artista tem a possibilidade de expressar sua arte, para aqueles que são sensíveis a ela, da forma como ele entender.

Impedir uma atividade artística é surreal. É similar ao medieval Index Librorum Prohibitorum. Uma sociedade que aceita tal destempero é fadada a sucumbir. Querer retirar de cartaz uma demonstração artística é um ato suicida. Isso causará mais danos do que a própria exposição artística criticada. Que se cobre das autoridades competentes o cumprimento das normas para cada evento artístico. No entanto, confundir essa solicitação normativa com uma cobrança de extirpar do cenário a própria exposição artística é equivocado. Se o crítico não gosta daquele evento, ele não precisa comparecer nem divulgar ou apoiar. Ponto final! Paremos com as firulas ideológicas e quem quiser ir que vá.

Essa confusão, pelo qual passa a sociedade brasileira, expressa outras questões. Essas, sim, são mais graves e extrapolam, inclusive, o cerne da arte. A falsa roupagem dos “bons costumes’ e os fakes dos chamados “homens de bens” ganham espaço. Com isso, as bravatas crescem e, a partir disso, um projeto surge. Esse é o ponto. Somente isso basta. O resto é uma retórica com uma pirotecnia ideológica. A verdade é que perdemos. Se compararmos com vários países, o nosso, mesmo rico em cultura, é bem empobrecido no número de espetáculos culturais. Apesar disso, uma fatia robusta da sociedade luta para tirar do ar espetáculos em cartaz. Como se isso fosse um ataque isolado a uma ou outra atividade específica. É um ataque a própria cultura. Ressalto que nos outros países mais evoluídos, em termos de olhar cultural, há também exposições e eventos artísticos que chocam. Todavia, entende-se que a arte nunca deve ser sucumbida por lorotas de ideologia e que todos, esquerdistas ou direitistas, aceitam que é importante defendê-la.

(*) As Três Graças de Rafael Sanzio

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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