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Crítica: Blade Runner 2049. Por Márcio Bastos

O que define um ser humano? Se um ser desenvolve a capacidade de acumular memórias e exprimir emoções, ele não pode ser considerado humano? Trazendo nas suas entrelinhas questionamentos extremamente filosóficos e existenciais – extraídos da obra ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS?, de Philip K. Dick –, o cultuado BLADE RUNNER – O CAÇADOR DE ANDROIDES, de 1982, oferece ao espectador uma experiência muito mais profunda que a de um simples policial inspirado nos filmes noir da década de 40 e 50.

Guardado no baú de memórias de todo grande cinéfilo, o filme de Ridley Scott – talvez o maior de sua carreira como diretor –, ganha uma inesperada continuação, agora nas mãos de um “monstro” chamado Denis Villeneuve (mesmo diretor de A CHEGADA). Depois de 35 anos, o filme de 82 ganha uma sequência memorável em todos os seus aspectos, que recria a atmosfera do original, conseguindo simultaneamente ser uma expansão do universo que já virou referência para tantos outros filmes.

Passados 30 anos dos eventos do longa anterior, temos agora como protagonista o personagem K (interpretado por Ryan Gosling), um novo blade runner que, em sua missão de “aposentar” replicantes – cópias humanas produzidas para servir de mão de obra submissa ao homem –, descobre um segredo que pode afundar ainda mais a sociedade no desmantelo. Sua descoberta faz com que ele reflita intensamente sobre a própria existência e, na busca por respostas, investigue o paradeiro de Rick Deckard (Harrison Ford), desaparecido há três décadas.

No novo BLADE RUNNER, mais uma vez a trama de detetive, que é bem simples, está ali apenas como artifício para refletirmos sobre algo muito maior. Sob a ótica de K, somos convidados a refletir sobre a humanidade que existe em cada um. O mais irônico é que o filme apresenta os replicantes como criações muito mais humanas que os próprios humanos. Enquanto seus criadores são retratados como cruéis, frios e impiedosos, eles revelam um olhar bem mais sensível, mostrando uma capacidade enorme de valorizar e apreciar a vida.

Outro fator importante de destacar é o ritmo da projeção. O filme de Villeneuve, assim como o de Scott, conta em grande parte com sua atmosfera para dialogar com o público. Sem pressa de andar na trama, tudo tem uma cadência lenta e contemplativa, apoiada pela belíssima fotografia de Roger Deakins (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ), que impressiona por seu impacto visual, e uma trilha sonora tão grandiosa quando a de Vangelis no primeiro filme, composta aqui pela dupla Benjamin Wallfisch junto com o já veterano Hans Zimmer.

Mostrando ter sido precisa sua escalação, Ryan Gosling, que costuma fazer papéis mais caladões, encaixa-se perfeitamente no que exige seu personagem. Atuando dentro da proposta do diretor, ele se expressa muito mais através de suas ações. Nesse ponto, o roteiro é muito feliz em introduzir a personagem de Joi (Ana de Armas), uma inteligência artificial que parece ter sentimentos genuínos por K e permite que o introspectivo blade runner revele o que se passa em seu interior.

Em entrevista, Villeneuve afirmou estar tranquilo com a ideia de seu longa não ser um sucesso. Mesmo sem emplacar com o grande público, certamente ele tem consciência do trabalho que concebeu. Fazendo um paralelo com a arte, acredito que toda obra para transcender seu tempo exige um distanciamento histórico necessário para ser legitimada ou não. Eu me arrisco a afirmar que para BLADE RUNNER 2049 o futuro será generoso.

Márcio Bastos é crítico de filmes e séries do nosso portal de notícias.

 

Márcio Bastos
Redator publicitário, graduado em Letras e devorador de filmes e séries desde menino véi.

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