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Régis Barros: Eu não suporto esse mundo…

Eu costumo aprender e crescer com cada paciente. Sem exceção, todos eles me alimentam de aprendizado e de esperança. Cada luta pela melhora representa um estímulo para continuar seguindo nesse mundo repleto de caos. Mesmo as histórias mais tristes e as situações mais angustiantes, permitem em mim um crescimento de aprendizado além de plantar uma semente de renovação no meu coração.

Na última semana, um paciente, gravemente, deprimido fez um relato verdadeiro e inesquecível. Acho, inclusive, que há possibilidade de que exista nele uma sintomatologia psicótica congruente com o humor. Por vezes, o seu niilismo e o seu pessimismo pareciam delirantes. Contudo, como havia coerência na sua fala, eu não pude, ainda, definir. Assim, ele falou na consulta:

“Eu não suporto mais esse mundo. Eu não suporto mais essa vida. Há tanta maldade que tenho medo de tudo. Tenho medo de todos. Tenho medo de mim. A caridade está se tornando peça rara. A bondade está cada vez mais volátil. Quando olhamos para as pessoas, encontramos uma legião de gente que só pensa em si. É a morte da alteridade. Mata-se, rouba-se, corrompe-se e se é corrompido. Em quem você pode acreditar? Se não fossem os nossos (pais e filhos), o que seria de nós? Infelizmente, até os nossos, por vezes, nos traem. Que mundo cão! Fome, maldade, domínio, crueldade, controle e preconceito. Isso não tem fim. Isso é inerente a nós. Em qual esperança eu me agarrarei? Responda-me! De que adianta melhorar? A depressão é algo doloroso e que corrói, mas, infelizmente, ela me permite enxergar a verdade. Essa é a verdade..”.

Essas falas são tão potentes que costumam tirar o fôlego e nos deixam confusos e perdidos. Parei e pensei, rapidamente, sobre o que deveria responder. E, assim caminhei:

“Não posso negar que tudo que foi dito é verdadeiro. Realmente, o ser humano é capaz de fazer tudo isso. Atrevo-me, até, dizer que muitos de nós, infelizmente, faríamos ou faremos. Mas, fiquei pensando sobre o que seria a maldade. Já que a maldade foi a base da sua tese sobre nós, humanos. A maldade cresce na lacuna da bondade. Há, sim, a maldade, mas, da mesma forma, em todos existe a bondade. Em alguns mais, noutros menos. A maldade é sorrateira. Se a bondade cochilar, a maldade acorda. Ela vai tomando a nossa essência. Daí, esse seu relato acaba por se confirmar. A questão é: como fazer a bondade crescer? Como fazer com que continuemos funcionando como as crianças. Se nós já fomos crianças, entendemos que, nessa época, a bondade dominava. Com o passar dos anos, a maldade vai encontrando suas brechas. Nós, repletos de bondade, fomos, sem perceber, crescendo e deixando a bondade escorrer pelas nossas mãos. Exercer a bondade é o caminho. Não penso nos outros. Se falta caridade, amor, alteridade e tudo de bom neles, resta-me lutar para que isso aconteça em excesso dentro de mim. Não se medir por eles, mas sim por você. Infelizmente, o momento negro da sua depressão dificulta que você perceba bondade em si mesmo. No entanto, há sim muita bondade nesse coração, pois a maldade externa te incomodou. Esse incômodo surgiu pelo fato de você está se identificando com esse externo, ou seja, esse mundo mal. Você não é isso. A depressão te trouxe essa percepção. Cabe-nos lutar, novamente, para fazer com que a sua bondade prevaleça como sempre foi.”

Ele se despediu. Agradeceu de forma discreta. O retorno está marcado. Espero que ele volte e que eu consigo enxergar, ao vivo, a sua bondade.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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