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Régis Barros: Quem realmente fortalece a “antipsiquiatria ”?

As relações entre os profissionais da saúde mental, desde as mudanças que ocorreram com a Reforma Psiquiátrica, em alguns momentos, não foram as melhores. Dentro dessas fragmentações, ganhou espaço, sobretudo nos últimos anos, a tese de que existiu um grande movimento nacional contra os psiquiatras. Esse movimento, como descrito por alguns, perseguiria e culpabilizaria os psiquiatras pelos equívocos históricos acontecidos na saúde mental.

Por ser um psiquiatra jovem, restou-me estudar sobre o assunto e, por interesses pessoais, assim, eu caminhei. Foram muitas pesquisas, leituras, escritas, análises e produções. A partir de então, construí minhas dissertações e teses sobre o assunto. Nesse pequeno artigo, trarei uma dessas teses a qual provoco com dois questionamentos:

Quem fortalece a “antipsiquiatria”?

Quem são os reais “antipsiquiatras”?

Claro que o conteúdo das perguntas já traz uma interpretação dentro delas. Fica subtendido que, possivelmente, a “antipsiquiatria” e o “antipsiquiatra”, caso existam, sejam produtos dos não psiquiatras. Ou seja, tais perspectivas seriam constructos de profissionais de outras áreas da saúde mental.

Será?

A leitura de Sapiens de Yuval Noah Harari permitiu-me refletir mais sobre esse tema. Conforme suas análises filosóficas, as quais eu concordo e admiro, nós evoluímos, em parte, pela nossa capacidade cognitiva de construir ficções. Acabamos por incorporar mitos compartilhando realidades imaginadas. Consequentemente, ao compartilhar disso, numa replicação constante, cooperamos em direção de um mesmo propósito. O mito une e, algumas vezes, até cega. A realidade imaginada é capaz, inclusive, de cegar a razão e a crítica. A “antipsiquiatria” seria fato ou mito? A que ela se serve? São reflexões filosóficas a serem questionadas e, quem sabe, aplicadas. Então, provoco com as seguintes perguntas as quais, certamente, terão diferentes respostas:

• Existiu, de fato, a “antipsiquiatria” e os “antipsiquiatras”?

• Quem são eles, caso eles existam?

• Se existiram, eles continuaram a existir no decorrer dos anos?

• Se existiram, eles tiveram um papel e foram importantes?

• Se existiram, o papel foi positivo ou negativo?

• Se existiram, eles tiveram algum poder para tirar do psiquiatra e da psiquiatria a sua importância social e na saúde?

São tantas perguntas que nós, realmente, ficamos confusos. Eu fiquei pensando sobre os vários colegas psicólogos e de outras áreas da saúde mental que nos encaminham pacientes. Eu pensei, ainda, na confiança desses profissionais para conosco, médicos psiquiatras. Eles, possivelmente, não farão parte do constructo social da “antispsiquiatria”, pois eles “apoiam” e “confiam” nos psiquiatras. Em outras palavras, os “antipsiquiatras” seriam os que criticaram e questionaram? Seriam aqueles que fizeram uma contraposição ativa ao modelo manicomial? Seriam aqueles que opinam e percebem diferente?

É possível que existam profissionais de outras áreas da saúde mental que não gostem de psiquiatras? Claro que a resposta é sim. E daí? Há quantos médicos que não gostam de psiquiatras? Há quantos psiquiatras que não gostam de outros psiquiatras? Há quantas pessoas que não gostam da gente? A importância de uma categoria e de uma intervenção em saúde não se concretiza por um cabo de guerra onde os “mais fortes” vencem. Essa importância acontece quando fazemos o certo. Essa importância se solidifica quando somos éticos. Essa importância se propaga quando trabalhamos tecnicamente sem distorções, distinções ou preconceitos. Fora isso, o que teremos mesmo é uma exorbitante empáfia.

Quem, de fato, alimenta essa suposta “antipsiquiatria” são aqueles que deturpam a psiquiatria e a assistência ao doente mental. E, inesperadamente, o próprio psiquiatra e a psiquiatria podem ser os grandes “antipsiquiatras”. Sem notar, eles podem atuar assim. Quando defendemos modelos hospitalares, contrariando a ciência e o mundo, nós, psiquiatras e associações de psiquiatria, somos grandes “antipsiquiatras”. O entendimento é simples. A psiquiatria é ampla e busca estimular a base comunitária. A internação psiquiátrica sempre será necessária, mas é um evento pontual como em todas as outras áreas médicas. Na maioria das vezes, os casos de internação não são refratários levando a um tempo de permanência não estendido. Desse modo, a psiquiatria busca, na sua essência, uma base comunitária e multidisciplinar de tratamento. Assim, deveria ser o certo. Esse é o modelo que deveria ser defendido e valorizado. O paciente precisa permanecer na maior parte do tempo na comunidade. Precisamos inseri-lo e lutar para que ele seja inserido. Isso diminui estigma e, notoriamente, é mais efetivo.

No entanto, se aqueles que detêm o poder associativo e a capacidade de barganha com as esferas governamentais defendem o contrário, resta-nos compreender que a desvalorização da psiquiatria não está no discurso da 3º pessoa, mas sim, em alto e bom som, em 1º pessoa. A “antipsiquiatria” será um autoproduto e não um olhar externo.

Régis Eric Maia Barros
Médico Psiquiatra
Psiquiatra perito do NERPEJ/TJDFT
Professor de Ética do Curso de Medicina do UniCeub
Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP/USP

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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