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Régis Barros: A intervenção que eu sonhei

Intervenção militar que nada!  É claro que isso não resolverá. Também, é claro que tal medida tem conotações políticas. A situação do Rio de Janeiro já está assim desde há muito tempo. Todos nós sabemos disso. Além do RJ, várias outras capitais brasileiras são assoladas pela mesma violência. Eis que a pirotecnia dos governos se repete. Entra e sai governo e as coisas continuam iguais.

Não suportamos mais essa insegurança e tal intranquilidade. Eu entendo isso. Parece que vivemos em regiões de guerra urbana. Daí, sempre que as Forças Armadas são chamadas, temos uma sensação de que “agora vai”. Mas, na verdade, não vai. O próprio Comandante do Exército Brasileiro, militar que tem minha admiração plena, não avalia com bons olhos o emprego das Forças Armadas em missões como essas decretadas no Rio de Janeiro. O motivo é simples: não se resolverá nada e, inevitavelmente, o Exército Brasileiro, na ação ostensiva, abordará obrigatoriamente a população pobre, que não alimenta a criminalidade.

Como dito, eu compreendo que a população, por não suportar mais esse caos, deseja algo rápido e, por isso, sempre é bem visto socialmente o emprego desse aparato militar. Seria uma resposta ao crime organizado o qual traria um regozijo de esperança. No entanto, mais cedo ou mais tarde, o Exército sairá desses espaços e tudo voltará como antes. Ou seja, narcotráfico, corrupção e abandono da comunidade pelo Estado. Por isso, concluo que a necessidade de holofotes políticos foi o grande propulsor dessa intervenção. Há muitas pautas do Governo Federal que precisam de tempo de ajuste. Além disso, esse governo, sem apoio da população precisa, urgentemente, jogar “para a torcida” a fim de sobreviver.

A verdadeira intervenção deveria ser ética. Aqui, reside o problema, visto que, ao analisar tudo que acontece no cenário político desse país, perceberemos que o futuro, a curto prazo, é bem nebuloso. É nessa falta de ética que a educação e a saúde vão sucumbindo. É nessa pobreza de ética que a corrupção se hipertrofia. É nessa ausência de ética que a miséria prospera. É na falência da ética que a violência e o crime organizado dão as cartas.

A intervenção deveria ser aí. Não com tanques, blindados e fuzis, mas sim com ética, uma palavra cada vez mais morta na realidade brasileira. Ao final da intervenção, as cortinas se fecharam e cada ator, político e narcotraficante, retornará para os seus escritórios. A engrenagem voltará a rodar e tudo continuará normal no caos de antes.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental e membro do Movimento Médicos pela Democracia

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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