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Régis Barros: A cegueira da nova Política de Drogas

Há poucos dias o CONAD (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas) aprovou uma nova resolução que impactará diretamente nas políticas públicas sobre drogas do país. Novamente, a tese trabalhada, nessa aprovação, vai de encontro ao que é razoável. Um caminho obtuso e conservador dá a roupagem das medidas. De fato, caminhamos na marcha à ré, pois os discursos de falso moralismo e de limpeza, tão atacados até pouco tempo atrás, ganham espaço, inclusive, nas políticas de saúde mental no Brasil.

A impressão que dá é que os atores e as instituições favoráveis a tais mudanças querem mostrar potência numa postura de gozo vingativo. É possível interpretar isso quando analisamos o discurso obscurantista e apelativo dos referidos atores. Tal perspectiva desnuda a pobreza de ideias que assola o país. Afirma-se, não sei de onde, que a população brasileira é majoritariamente contrária a quaisquer tipos de legalizações de drogas. Além disso, há uma inflexibilidade na dimensão das possibilidades dos tratamentos possíveis numa clara tendência de apoiar internações e, sobretudo, comunidades terapêuticas.

Uma lógica grave e deletéria, visto que, não permite o entendimento da diversidade de possibilidades terapêuticas. Portanto, há pacientes que demandarão abstinência plena e outros não. Há pacientes que aceitarão e se beneficiarão com um tipo de conduta enquanto vários outros não. Esse novo olhar proposto na nova Política de Drogas limita tudo isso. Ele acaba por amarrar. Há uma tentativa infeliz de centrar a terapêutica no ambiente hospitalar e nas mãos de poucas pessoas e não do espaço comunitário que é o certo. Se houver indicação de internação que se faça, mas a própria internação nunca foi, na medicina, o tratamento inicial para os infortúnios à saúde.

O que temos com essa fala do CONAD é a confirmação da “política dos embustes”. A esquiva das estatísticas decentes ganha espaço nos discursos apaixonados que são repletos de “pseudosalvação” messiânica. A falta de embasamento cria exatamente isso – a conjectura do oposto. Afirma-se que o melhor para o povo será isso quando na verdade não será e nunca foi.

Portanto, é preciso denunciar os erros. Apontar as falhas e os interesses subliminares nessas medidas políticas. O mais grave é definir pontos importantes na vida da sociedade sem discuti-los com ela e usando de “verdades mentirosas” para tal. São tempos nebulosos em que a força sobrepuja o que é certo e ético.

Régis Eric Maia BarroS é Médico Psiquiatra, Perito do TJDFT, Professor do Curso de Medicina do UniCeub/DF, Mestre e Doutor em Saúde Mental pela FMRP-USP.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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