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Régis Barros: Nervos de aço

Hoje, uma nova perícia domiciliar. Uma vez por semana faço perícias na própria residência dos periciandos, haja vista, que eles, por estarem acamados, não podem se deslocar a minha unidade de trabalho no TJDFT.

No caminho, li atentamente os autos processuais e tudo levava a crer que seria um caso simples. Os relatórios médicos descreviam uma pericianda com um quadro demencial avançado que levava a uma total dependência de cuidados por parte do curador, seu esposo. Pelos documentos médicos, a pericianda não interagia mais e estava restrita ao leito além de apresentar total incapacidade de reger a própria vida ou expressar a sua vontade.

Ao entrar na residência, fui recebido pelo esposo da pericianda. Os filhos do casal não residiam em Brasília e eles estavam casados há mais de 50 anos. Na verdade, eles eram “somente eles” numa trajetória de um cuidar do outro e vice-versa. Como imaginava, a tarefa pericial era extremamente simples. A materialidade do pedido, na inicial do processo, era clara e objetiva.

No entanto, entendo que, embora seja perito, sou humano e não abdico de usar de afeto e de humanismo. Isso me autoriza e permite que eu sempre tente ir além da função pericial. Foi então que percebi na parede da casa algumas imagens de festas, bailes e de trupes musicais. Em outra parede, percebi violões pregados nela. Perguntei, então, o lógico. Perguntei se ele gostava de música.

Foi aí que a perícia começou. Ele mostrou seus CDs. Ele colocou no som algumas das suas próprias composições musicais para eu escutar. Várias músicas. A cada música, uma história e uma recordação. No meio de tudo isso, ele me disse que encontrou sua esposa através da música. Ele informou como sua esposa tinha “voz de veludo”. Como ela era linda e como a vida foi boa para os dois. Disse que a música sempre os manteve unidos e próximos. Ele afirmou que, em meio àquela solidão, a música ainda mantinha a vida. Ele compreendia que a doença já não permitia que sua esposa entendesse as coisas ou interagisse como antes. Todavia, ele percebia que a música era o único elo vivo entre eles e dela com a realidade. Ao final, ele enxugou as lágrimas que corriam no seu rosto e me levou ao quarto onde ela estava.

Sem dúvidas, um quadro demencial bem avançado e uma interdição clara que devia ser encaminhada. De repente, ele chega ao quarto portando um dos seus violões e, então, começa a tocar “Nervos de Aço” de Lupicínio Rodrigues. Diante da inércia e da apatia de contato por parte da pericianda, eu pude perceber um pequeno sorriso a se formar na sua face. Ele terminou de cantar e de tocar. Saiu do quarto de forma silenciosa e voltou para sala. Ao olhar novamente para pericianda, eu a percebi sem interação conforme a gravidade clínica do quadro.

Ao final, eu me despedi. Agradeci aquela musicalidade e acabei por me dirigir ao carro. Não saia da minha cabeça o início da música na voz do esposo da pericianda. Durante todo o dia, os versos abaixo não saíram da minha cabeça.

“Você sabe o que é ter um amor, meu senhor?
Ter loucura por uma mulher…”

É isso! Por hoje, findamos a labuta. Preciso dormir…

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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