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Régis Barros: Estamos doentes…

Nem percebemos o quanto. Depois da morte da vereadora Marielle, esperei alguns dias para escrever algo. Isso serviu de laboratório, pois pude ler muitas opiniões e manifestações. Talvez, quem sabe, venha a escrever e publicar um artigo.

Por enquanto, eu escreverei essa breve reflexão.

Uma mulher humilde, negra e proveniente da Comunidade da Maré é eleita vereadora no RJ. Uma vereadora atuante basta ler sua bibliografia e sua participação nessa casa. Respeitando suas concepcões filosóficas e ideológicas bem como o povo que a elegeu, ela é uma voz ativa na denúncia dos eventos e abusos que ocorrem nos morros cariocas.

Então, sua fala social é potente. Os desmandos e a corrupção policial e a atuação das milícias aparecem na sua pauta de denúncia.

Ela nunca defendeu bandido!

É cretino falar isso.
É oportunista falar isso.
É perverso falar isso.

Ela denunciou, sim, policiais que não honram suas fardas e sua missão além de expor como as milícias atuam e dominam as comunidades pobres do RJ.

Aí, uma leva de pessoas, que vivem no dito “asfalto” – fora dos morros e de tais comunidades, se acham com capacidade de entender o funcionamento desses locais. Consequentemente, esses “senhores da verdade” vomitam suas construcões ácidas e repletas de maldades.

Tudo isso comprova a nossa doença social. É a prova cabal desse maniqueísmo tolo e pobre o qual impera nos dias de hoje na sociedade brasileira.

Abrem-se discussões de que a vida de Marielle tem mais valor do que a de outros que morreram em decorrência da violência. Fala-se isso simplesmente pela comoção política e popular frente ao seu assassinato.

O quão mal as pessoas podem ser…

Cria-se esse tipo de conjectura para negar o que é real, ou seja, a execução de uma vereadora, pessoa pública, que veio de um meio pobre e denunciou policiais corruptos e milicianos.

Ela denunciou bandidos e não defendeu bandidos

As linhas iniciais de investigação vão ao encontro disso. Ela foi executada por denunciar. Ela morreu por ter sido corajosa. É possível que muito poucos daqueles que a criticaram recentemente tenham essa coragem.

Que se faça justiça…

Que possamos nos tratar parando para pensar sobre essa fétida dicotomização política em todos os discursos.

Se defendermos esse olhar dicotomizado, daremos salvo conduto para quem quiser calar falas democráticas, que denunciam os abusos do cotidiano. Sejam quaisquer falas e de quaisquer linhas ideológicas

Régis Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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