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Régis Barros: Ovos, pedras e tiros…

Quando um coletivo defende o ato de arremessar ovos, pedras e tiros noutras pessoas, tudo faliu. Quem defende tais atitudes cria suas teses e justificativas as quais, geralmente, vêm permeadas de ataques projetivos ao outro. Portanto, esse outro, que recebeu tais ataques, é que seria o culpado, sob essa égide agressiva.

Diante disso, entendo que a nossa democracia faliu, pois a discordância nas ideias, que sempre foi frágil no nosso país, não é mais a pauta, visto que, o lance é ser bestial e mostrar, agressivamente, o seu potencial vil e de dominação. Ao atacarem uma manifestação coletiva dessa maneira, sob os olhos atentos de agentes do estado, nasce uma mensagem que nem é mais subliminar como em outrora – o sonho de exterminar com a morte quem for diferente. Esse ponto passa a não ser uma questão de partido e corrente ideológica. Se nós alimentamos o bestial, poderemos ora ser “bestas” perversas e ora ser vítimas de outras “bestas” tão perversas quanto. A motivação para exterminar se constituirá unicamente na não aceitação do diferente e essa diferença será concretizada, inclusive, pelo simples ato de enxergar o mundo sob uma ótica ideológica não similar daqueles que apelidei de “bestas”.

Lembrei-me do poderio nazista e da sua marcha para exterminar tudo aquilo percebido pelos seus olhos como diferente e, consequentemente, inadequado. Antes dos judeus, alemães opositores, Testemunhas de Jeová (Triângulos Roxos), homossexuais e vários outros grupos foram exterminados. Antes desse extermínio em massa, a sociedade apoiadora fez questão de deixar claro que o diferente não era bem vindo e merecia morrer. Não eram os militares da Gestapo que identificavam as casas e lojas judias com pichações. Eles também não eram os principais responsáveis por denunciar esses grupos que “mereciam ser excluídos” da sociedade. Quem fazia isso era o cidadão dito comum e de “bem”.

Então, tais ovos, pedras e tiros representam muito mais do que uma busca por democracia e pelo fim da corrupção. Eles representam um alerta sobre o mal e o cruel que sempre estiveram presentes e adormecidos. E, infelizmente, passo a crer que eles poderão acordar. Depois dessa hibernação, eles virão poderosos. O mundo moderno não aceitará novas câmaras de gás, contudo outros elementos de eliminação nascerão e serão chancelados por esses homens de “bem” que usam ovos, pedras e tiros. E se, por acaso, isso ferir ou matar alguém? Não haverá problemas já que eles são diferentes…

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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