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José Maria Philomeno: O discurso de Lula

Em cima de um caminhão de som na porta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, bravando palavras de ‘resistência’ contra seus hoje ‘opressores’, e sobre aplausos e gritos de apoio de milhares de simpatizantes. Foi assim, resgatando o mesmo enredo e cenário do então líder sindical que emergiu para o mundo político comandando greves operárias no final dos anos 70, o último ato de Lula antes de entregar-se à polícia para cumprir a pena de prisão lhe imposta pela Justiça.
Seu inflamado discurso reiterou as máximas repetidas ao longo de todo este processo: de ter sido condenado sem provas, num ato de perseguição contra si orquestrado pela imprensa e partes da Polícia Federal, Ministério Público e Judiciário, que estariam à ‘serviço’ das elites para impedi-lo de retornar ao Poder. Sendo assim um mero preso político.
É evidente que o ex-presidente Lula não é um preso político. Mas sim um político condenado por crimes comuns (corrupção e lavagem de dinheiro), através do devido processo legal no qual lhe foi facultado todo o direito de defesa. Assim como tem sido centenas de outros políticos de diversos partidos, alvejados pelas operações de combate à corrupção e desvios dos recursos públicos.
Bem ou mal vivemos em uma democracia, como regras e instituições estabelecidas por uma Constituição votada pelo povo. Preso político é aquele que está encarcerado por delito de consciência ou que é aprisionado por sua luta contra um regime despótico. Só as ditaduras fazem presos políticos, como Cuba, por exemplo.
Logicamente que Lula como cidadão e também como marcante liderança política – que atrai milhões de simpatizantes e eleitores-, tem todo o direito de expressar seu inconformismo com as decisões judiciais, por mais legitimadas que sejam. Este talvez seja o mais importante princípio da democracia.
E, em sua fala Lula conclamou que: “sua prisão não apagaria a chama que acendeu, e que a partir de agora todos vão virar um Lula, pois não há hora pra defender a democracia”.
Contudo, possivelmente dominado pelo sentimento de revolta que o acometia proferiu que: “Vamos fazer definitivamente uma regulação dos meios de comunicação para que o povo não seja vítima das mentiras todo santo dia. Eles têm que saber que vocês poderão queimar os pneus que tanto queimam, fazer as ocupações no campo e na cidade. Parecia difícil a ocupação de São Bernardo e amanhã vocês vão receber a notícia de que ganharam o terreno que vocês invadiram.”
Ou seja, ao fazer uma pregação incitando ao divisionismo social, à transgressão legal e na defesa do arbítrio da censura, Lula mostrou-se muito distante dos estadistas aos quais se comparou: Cristo, Tiradentes e Mandela. Os quais, mesmo submetidos ao calvário de injusta prisão, deixaram para o mundo o exemplo de lideres que jamais se afastaram da busca intransigente pela paz social e pela plena democracia.

José Maria Philomeno é economista e advogado

pab

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