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Régis Barros: Quem disse que o perito não chora…

Uma nova perícia. Novamente, uma atividade domiciliar. De novo, aqueles relatórios médicos bem descritos deixavam claro que a tarefa pericial era simples e resumia-se em confirmar o que estava descrito nos autos. Inclusive, o próprio Juízo já tinha entendido isso e antecipado a tutela.

O requerente do processo era o filho do periciando. Ele, o periciando, não era tão idoso. Pelos documentos médicos, uma demência fronto-temporal tinha o acometido. O quadro se iniciou precocemente e evoluiu de forma rápida deixando-o bem dependente e incapaz de se cuidar. A interdição se mostrava clara e óbvia.

Na casa do periciando, fui recebido pela sua esposa. Eu o avaliei no quarto em que ele estava instalado. Ele já necessitava de cuidadores pelo estado avançado da patologia demencial. Perguntei pelo seu filho, requerente do processo. Costumo sempre conversar com o futuro curador. Considero importante para saber um pouco da dinâmica entre curador e curatelado. De forma um tanto angustiada, a esposa do periciando apontou para um quarto e disse que ele estava lá. Antes de irmos a esse quarto, ela informou que seu filho não aceitava aquela situação do pai. Acrescentou que eles tinham uma banda de rock e que o vínculo musical entre eles era muito forte. Desde que o periciando se mostrou incapacitado para tocar com a banda, ela não ensaiava mais. Apesar disso, o filho do periciando tinha seus momentos introspectivos em solos na sua guitarra.

Quando adentrei ao quarto, percebi que não era um quarto, mas sim um pequeno estúdio. Provavelmente, eles ensaiavam e gravavam lá. Na parede, várias fotos e álbuns do Pink Floyd. Muitas fotos também da banda. Ele e seu pai estavam nelas. Sempre sorridentes e abraçados. Ele com uma linda guitarra vermelha e seu pai com um belo baixo azul. Aquele espaço tinha uma energia positiva. Uma atmosfera diferente a qual ainda agora não sei descrever muito bem. Eu me apresentei rapidamente. Expliquei o meu objetivo com a visita e a conclusão do meu parecer pericial. Ele agradeceu minha visita de forma cortês. Antes de finalizar o meu trabalho pericial, eu me permiti sair do meu papel e falei que adorava o Pink Floyd e que a composição “Coming Back to Life” era a minha favorita.

Para minha surpresa, ele pediu para que eu sentasse na poltrona localizada no canto do estúdio. Ele pegou o baixo azul e colocou numa espécie de suporte e o deixou perto dele. Então, ele foi num equipamento de som o qual eu confesso que não sei qual é. Só sei que ele era acoplado a um notebook. Ele pegou sua guitarra vermelha e sentou num pequeno banco. A mesma guitarra vermelha das fotos na parede. Por fim, ele apertou um botão e das caixas de som vieram todos os acordes da minha música preferida com exceção da voz e da guitarra.

Assim, ele de forma magnífica cantou “Coming Back to Life” e solou a guitarra de maneira sublime. Ele fez isso do começo ao fim da música. Eu notei que, enquanto ele cantava e solava, saltavam lágrimas dos seus olhos e, também, dos olhos da sua mãe que assistia a tudo em pé na porta de entrada do quarto. Eu notei as lágrimas deles, mas acredito que eles não notaram as lágrimas que saíram dos meus olhos. Termino esse relato com o trecho inicial da música e sua tradução bem como o link da música numa apresentação épica de David Gilmour. Enfim, o perito também chora…

“Where were you when I was burned and broken
While the days slipped by from my window watching
Where were you when I was hurt and helpless…”

“Onde você estava quando fui queimado e arrasado?
Enquanto os dias passavam e eu olhava pela minha janela
Onde você estava quando fui ferido e estava desamparado…”

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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