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Arruda Bastos: No dia das mães ninguém deve se sentir órfão

O Dia da Mães é sempre comemorado com muito amor, afeto, carinho e em reconhecimento do valor das nossas queridas mamães.  A despeito do atual viés capitalista e mercadológico, é uma data importante para reforçar os vínculos afetivos e familiares. No Brasil, o dia das mães se tornou oficial em 1932, com um decreto do presidente Getúlio Vargas.

Hoje, estou com o coração apertado e sentindo, pela primeira vez, uma saudade diferente, pois a minha homenageada do dia não está mais aqui para receber meus beijos recheados de amor, meus abraços com muito carinho e os meus presentes. Agora, minha mãezinha, Maria de Lourdes, é uma santa de fato e de direito e está no Céu atendendo à convocação de Deus para ocupar sua morada definitiva.

Meu querido pai, Cesar Bastos, foi chamado anteriormente, e já há 17 anos sinto a mesma melancolia; e a tristeza sempre se exacerba em agosto, no dia dos pais, e quando vejo que naquela mesa tá faltando ele. Sou, portanto, órfão, mas só nos últimos dias é que passei a refletir sobre essa condição. Para mim, a orfandade, que é uma condição natural da nossa vida, passava bem distante dos meus pensamentos.

Talvez, pelo lapso de tempo, por ter sido tudo muito rápido, não me sinto órfão, ou será pelos exemplos que eles deixaram, pelo espírito, religiosidade e todo o amor que nos dedicaram. Depois de muito matutar, recordar episódios inesquecíveis da nossa convivência, da minha infância, rever os seus retratos, objetos pessoais e enfrentar esse dilema de ser ou não ser, descobri que é tudo isso mesmo que disse: ainda os sinto aqui pelos exemplos e amor que nos ofereceram. No meu caso, acrescento que tenho ainda na terra mais uma pessoa especial, que ajudou minha mãe a criar seus filhos.

Desde a época dos meus avós, essa pessoa dedicada e excepcional mora na família e, depois do casamento dos meus pais, passou a residir na nossa casa. Para todos, ela sempre teve o status de uma mãezona. Assim, na realidade, tenho inúmeros motivos do coração para resistir à minha condição atual de órfão e sei que os meus leitores, que também o são, vão encontrar seus motivos para não se sentirem assim.

Maria Alves de Sousa, ou carinhosamente Atá, como é conhecida, tem hoje 94 anos e apresenta diversos problemas de saúde comuns em um grande número de senhoras da sua idade. São doenças ortopédicas, dependência de cadeira de rodas, sem falar num certo grau de Alzheimer. Entretanto, tudo isso não a impede de, quando a visitamos, com seu olhar penetrante comunicar todo o seu amor à sua segunda família.

Recordo de inúmeros episódios em que Atá foi marcante na minha vida. Ela era a pessoa de confiança dos meus pais, nossa acompanhante e proteção nos passeios, nas férias, na praia, nos desfiles de carnaval, nas tradicionais paradas de sete de setembro, nas visitas aos familiares e em tantos outros passeios e momentos de alegria, pois minha mãe, com nove filhos, sempre tinha um pequenino para cuidar.

Nunca me esqueci do dia em que me perdi, ainda criança, no Centro de Fortaleza, e de como Atá, persistente, encontrou-me depois de várias horas; e também de quando desci do ônibus sozinho antes da parada e foi ela que, como uma mãe, consolou-me e brigou com o motorista por ter aberto a porta. Não sai também do meu paladar a sua comida e principalmente o gostinho inigualável do seu bife à milanesa que eu ajudava a fazer, sentado no chão da cozinha, martelando a farinha de pão. Era tudo com muito amor.

Com essa singela homenagem a quem dedica sua vida às nossas famílias, quero deixar a mensagem a todos os filhos que o importante mesmo é o amor, o respeito e o carinho que deve existir com nossos pais. Nesse dia especial das mães devemos elevar nossos olhos e orações a Deus para pedir por elas, pela sua saúde, paz e felicidade e, no caso de já estarem em um plano superior, pela sua intercessão e salvação, pois assim nunca estaremos órfãos.

Para concluir, digo que em todas as famílias vamos encontrar mães iluminadas como as minhas: Maria de Lourdes e Atá, querida esposa Marcilia, filhas Lia e Lívia, sogra Vandereida, irmãs, sobrinhas, cunhadas e amigas. Enfim, obrigado, mãezinhas, pelos joelhos dobrados, pelas noites mal dormidas, por chorarem abraçada conosco, nas nossas vitórias e dificuldades e por nos ensinarem o caminho certo a seguir. Feliz Dia das Mães.

Arruda Bastos é médico, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e um filho apaixonado pelas suas duas mães.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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