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Régis Barros: Ustra vive…

Semana passada, eu assisti a um vídeo em que um jovem na Alemanha fazia saudação nazista na rua. Eis que um cidadão se aproximou dele e meteu-lhe a tapa. Todos ao redor se aproximaram também e demonstraram insatisfação com a atitude desse jovem. O coletivo não aproveitou a situação para açoitá-lo, mas o expulsou daquele local público. O coletivo demonstrou que aquele gesto não era bem vindo por mais que ainda existam adoradores disso. Ponto final! Aquela sociedade entende o que significa tal regime. Aquela sociedade sabe muito bem o que representa de risco uma ação que valoriza agressores da dignidade humana. Por isso, qualquer evento que faça menção a tais facínoras nunca será bem vindo. Sociedades, que viveram uma ética mais profunda, vivencial e apurada, compreendem o risco de vangloriar crápulas.

A imagem anexada nesse pequeno texto é a de um deputado federal brasileiro, que andou pelos corredores da Câmara dos Deputados, trajado com uma camisa que destacava a imagem do Cel. Ustra. Nela, existiam, também, os seguintes dizeres “Ustra Vive”. Esse deputado federal é filho de outro que será um presidenciável esse ano. Esse, por sinal, na votação do impeachment da Presidente Dilma, elogiou publicamente o próprio Cel. Ustra com a seguinte reflexão: “…pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff…”.

Quem foi Ustra? O que ele fez?

Cada um tem a sua verdade, como bem trabalhado por Nietzsche, e cada um procura validá-la da sua forma e com o seu desejo de que a verdade seja, de fato, verdadeira. No entanto, a história fala e, ao falar, essa ciência, que anda de mãos dadas com a filosofia, prova. Sabemos todos nós o que aconteceu na ditadura militar. Sabemos todos nós o que pessoas sofreram na mão de torturadores. É aviltante defender quem defende ou quem praticou tortura. Isso é um ataque à própria humanidade. Inclusive, acaba sendo um ataque aos próprios defensores dos dois deputados que defenderam o Cel. Ustra. A resposta para tal é simples – todos nós somos humanos e nenhum de nós, independente do que pensemos e façamos, poderá ser vítima de tortura. Ninguém deverá, seja apoiador ou não desses deputados.

O maior ataque ético de quem aplaude tais deputados está na indiferença frente à dor. Quem cala frente à dor alheia exala maldade mesmo que não se considere mal. Quem aplaude sabidamente aquele que torturou e tortura não deveria viver em sociedade. A ética traz no seu bojo duas questões imutáveis de reflexão: a vida humana e o outro.

Se a vida e o outro são meros detalhes bobos, há uma perda total do que é razoável. O resultado é simples – a banalização do mal. Infelizmente, ele tem possibilidade de se procriar e difundir. Claques e legiões se constituirão e ajudarão nesse processo.

Por fim, infelizmente, venho concordar com os dizeres da camisa do deputado. De fato, “Ustra vive”, visto que, a sociedade está tão doente, cega e reacionária que funcionamentos fascistas ganham corpo. Desse modo, ele vai vivendo…

E o futuro?

Esse me assusta, pois temo por mim, que continuarei a escrever e a denunciar, e por vários amigos que pensam na vida e no outro. Se o futuro caminha nessa lógica, poderemos ser detidos e entrevistados por torturadores em algum momento das nossas vidas.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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