Home > Colunistas > Régis Barros: “Malandragem” no futebol

Régis Barros: “Malandragem” no futebol

Costumamos ou, pelo menos, costumávamos a ficar muito felizes com a nossa “malandragem” no futebol. Aquele “jeitinho” que nada mais é do que simular ou enganar. Aquele “estilo” da malandragem futebolística que ludibria. Enfim, o “país do futebol”, sem perceber, foi validando esse comportamento o qual se propaga em vários outros setores.

Por mais que não queiramos perceber, aparecem exemplos disso. No primeiro jogo da Copa do Mundo, um famoso narrador brasileiro questionava o fato de um jogador russo desistir das jogadas por se perceber impedido. Segundo ele, vai que o juiz e o bandeirinha não notassem e desse certo se passar por “Joãozinho sem braço”. Ontem, assisti a um vídeo com garotos, torcedores do Brasil, que, na Rússia, desdenhavam de uma russa ao entonar um grito de guerra agressivo sobra sua genitália. Claro que, por não entender uma palavra em português, ela repetia de forma inocente o grito: “b#@*ta rosa…”

É isso mesmo?

Queremos ser esse povo? Queremos “passar a perna” e ganhar, pois “vai que o juiz não nota”? Não há nenhuma honra em ser o melhor assim. Não há nenhuma vitória em ganhar com pouca ética e sem lealdade. Não há dignidade em querer se dá bem enganando e tapeando. Alguém poderia me responder que isso é inocência já que “todos fazem o mesmo”.

Será?

E mesmo que os demais fizessem isso não podemos usá-los como justificativas para atitudes semelhantes. Se os demais são assim, que sejam! Não há a mínima necessidade de, por ventura, nos igualar. Alguém poderá falar: “mas, poderemos perder se caminharmos com essa ética kantiana”? Respondo a esse questionamento da seguinte forma: de que adianta ganhar assim? De que adianta ganhar com desvios do certo?

Os dois exemplos, que apresentei acima, parecem pequenos e tolos, porém, na verdade, descrevem, e muito, o modus operandi de parte da nossa sociedade. O que vivemos nos dias de hoje é reflexo disso. O que padecemos e sofremos pode, pelo menos em parte, ser justificado por tal funcionamento. A falência ética no Brasil putrifica a esperança. A busca de se dar bem a todo custo, mesmo que, sabidamente, optemos pelo errado, expressa algo desolador. O desejo de curtir e desrespeitar o outro e, apesar disso, querer demonstrar uma falsa alegria personifica uma feiura sem igual.

Que possamos ganhar o máximo de competições que estivermos disputando. No entanto, entendo que uma grande vitória seria que nosso povo incorporasse uma ética produtiva e capacidade crítica proeminente.

Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *