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Régis Barros: Qual é o limite da brincadeira?

O vídeo dos brasileiros zoando de forma misógina aquela cidadã russa é mais um dentre vários semelhantes. Vídeos, teoricamente, “descontraídos” que são repletos de ataques éticos e morais acontecem aos montes. Por isso, eu costumo ser redundante ao falar que ética sempre é um assunto atual. Independentemente do tempo e da era em que vivamos, a ética sempre será um conteúdo a ser analisado, estudado e debatido.

Esses vídeos são exemplos reais disso. Nesse mundo digital e conectado pelas mídias sociais, a ética traz novos enlaces de reflexão. Aquilo que é feito e comentado é, também, divulgado em tempo real. Portanto, o que foi dito e aquilo que é proposto já não é mais algo seu, mas sim de todos. E se você tiver associando a sua imagem àquilo que não é ético e que ataca a moral, você não poderá se defender.

Os três verbos que alicerçam a ética – querer, poder e dever – precisam, mais do que nunca, de entendimento e compreensão. O comportamento virtuoso e a dignidade da pessoa humana são construções universais, ou seja, elas são válidas para além das nossas fronteiras. Desta feita, sair do Brasil para atacar a dignidade da mulher num outro país e pensar que isso não reverberará é tolo e inconsequente. A falência ética foi alcançada e não adianta se justificar dizendo que o deslize foi movido “pela folia e pelo álcool”. Se considerarmos isso como justificativas, validaremos todas as falências éticas já realizadas até então, visto que, justificamos todas as nossas atitudes, nobres e insanas, com alguma explicação de validade duvidosa.

O certo pode até não alcançar a lógica imperativa de Kant, contudo, quando nos faltam bom senso e discernimento ético, acabamos por agir assim – com essa força deletéria de machucar e desrespeitar o alheio. Na hora, muitas vezes, pensamos que é somente uma brincadeira pueril, mas, infelizmente, no fundo, é algo grave e que merece repúdio.

Nem tudo o que queremos e podemos deve ser feito. Isso é óbvio. Não estamos acima das coisas. Precisamos do crivo da ética para nos frear. Então, depois de feito o “mal feito”, que ataca a ética, não adiantará contemporizar. Os princípios éticos que nos regem podem até sofrer ação da cultura e do tempo, mas tendem a imutabilidade, sobretudo os que protegem a vida e a dignidade.

Somos protagonistas das nossas escolhas. Nossas ações serão avaliadas pelo externo. Cabe-nos, antes de tudo, olhar para nós mesmos e para as nossas atitudes. A partir daí, poderemos, quem sabe, iluminar com ética o nosso agir.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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