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Régis Barros: Estar deprimido

De fato, quem já esteve deprimido sabe o quanto isso é ruim. Quem já esteve deprimido sentiu, na pele, dias muito nebulosos na vida. Ao falar de depressão, costumo pensar em várias coisas e, dentre elas, enxergo os verbos “ser” e “estar”. Verbos de ligação importantes e com significados claramente diferentes. No entanto, eles se confundem na mente atormentada por uma importante e longa depressão. Quem padece de um estado depressivo carrega em si uma ruminação de sensações enegrecidas e, infelizmente, pode também se perceber bem enegrecido, mesmo que nunca tenha sido. Portanto, o deprimido “está” nessa vibe e se percebe assim. Ou seja, ele “está” desse jeito. Todavia, ficar assim por muito tempo ou melhor “estar” assim por um tempo considerável faz com que exista uma confusão no coração e na mente do deprimido. O “estar” enegrecido é percebido como eu “sou” enegrecido. Eis um problema de natureza cognitiva a ser atacado.

E como atacá-lo?

Claro que a resposta imediata seria: vamos atacar com o tratamento!

Concordo. Perfeito! É urgente o estabelecimento de um belo tratamento.

Mas, citarei uma resposta que dei a uma paciente ontem. Ela estava bem deprimida e precisei respondâ-la. Além do tratamento amplo e efetivo com os remédios, precisamos de amor e de espontaneidade de afetos.

Essa paciente, que estava já confundido o “estar” enegrecida com o “ser” enegrecida, olhou para mim e, inconscientemente, buscou uma validação externa para essas dolorosas percepções do negro.

Ela me perguntou:
─ Doutor, o que o senhor vê ao olhar para mim?

Parei, pensei rápido e lembrei da música do Ira. E, portanto, respondi.
─ Eu vejo flores em você!

Mesmo deprimida, ela esboçou um sorriso e expliquei que o estado será transitório (“estar”), visto que, ela não é (“ser”) isso que, equivocadamente, vem se percebendo. Busquei um bom vínculo e começamos a tratar.

Espero de coração sentir em breve os cheiros das flores que emanarão dela…
Régis Eric Maia Barros

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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