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Arruda Bastos: Quem pariu o Dr. Bumbum?

Nos últimos dias, a imprensa passou a divulgar, com destaque, o caso do médico Denis César Barros Furtado, conhecido também pela alcunha de “Dr. Bumbum”, envolvido no trágico falecimento da bancária Lilian Calixto, ocorrido após procedimento estético nos glúteos realizado na cobertura do profissional no Rio de Janeiro.

O destaque ficou ainda maior com a divulgação da extensa ficha corrida do médico, com diversos crimes desde homicídio à porte ilegal de armas, invasão de domicílio, crime contra a administração, suspensão de registro profissional e processo ético disciplinar no Conselho Regional de Medicina de Brasília.

Outro ponto agravante foi a informação de que a mãe do Dr. Bumbum é também médica e que atualmente está com seu registro profissional cassado no Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro por vários crimes éticos, dentre os quais a realização de procedimentos não aprovados pela comunidade científica.

A pergunta que não quer calar é “como o Dr. Bumbum atuava nas barbas das entidades médicas, da polícia, da vigilância sanitária e como tantas pacientes entregaram o seu corpo a esse desqualificado médico?”. Pois, só de olhar seus posts nas redes sociais, chega-se facilmente à conclusão que ele tem sérios problemas éticos e comportamentais.

Em suas contas na internet, o Dr. Bumbum divulgava textos absurdos e delirantes, prometia o Céu na Terra, vídeos com pacientes, acenos moralistas de quem posa de bom moço, defendia a ética e sempre criticava os políticos de esquerda, posicionamento típico dos coxinhas do golpe. Um protótipo de “cidadão de bem”.

Mas, quem pariu o Dr. Bumbum? Sua mãe, Maria de Fátima Furtado, sem dúvida, dirão meus leitores mais apressados, pois foi ela que lhe deu a luz e o seu exemplo pode também ter influenciado na sua formação criminosa. Vídeos dos dois e a participação dela nos procedimentos médicos irregulares podem justificar sua culpa no cartório.

Entretanto, o Dr. Bumbum foi forjado no tempo por muitos outros fatores que estão além da sua mãe biológica. Não podemos eximir como responsáveis pela gênese de tamanha aberração as faculdades médicas, que não se preocupam em ensinar ética; uma parte da nossa sociedade capitalista, com sua valorização exagerada com o “ter” no lugar do “ser”; o consumismo desenfreado e outras futilidades.

Fator importante na geração de elementos como o Dr. Bumbum é a impunidade e a leniência reinante em alguns órgãos que deveriam fiscalizar o exercício ético da profissão no nosso Brasil e a vigilância sanitária dos estados e municípios. Todos sabiam que a atividade profissional do médico era irregular e divulgada aos borbotões nas redes sociais. Era só procurar, agir e intervir.

Alguns podem até culpar as pacientes como também responsáveis pelo surgimento de pessoas distorcidas como o famigerado Dr. Bumbum, mas aqui eu quero afirmar que elas são vítimas e não culpadas. Elas, sem dúvida, foram ludibriadas pela propaganda enganosa, como muitos de nós que se deixam levar pelas Fake News.  A vítima nunca é culpada.

De forma geral, podemos também responsabilizar a valorização exagerada da beleza e, no nosso país, a cultura do bumbum como símbolo sexual, fato notório nas músicas, danças, etc. Aqui tem até um tal de “Miss Bumbum Brasil”, concurso entre 27 participantes pré-selecionadas, cada uma representando um estado brasileiro.

A “pigofilia” é um termo cientifico dado à atração exagerada por bumbum. A palavra é derivada do termo grego, “pygo”, usada para denominar a parte traseira dos animais e “philia” é uma palavra grega para denominar exagerada afeição ou amor. O médico tinha um fetiche por nádegas.

O Dr. Bumbum deve responder por indicação de tratamentos não aprovados no Brasil, uso de substâncias proibidas, ausência de registro profissional no Rio, promessas milagrosas de resultados rápidos, realização de procedimentos em local incompatível e crime doloso ou culposo, segundo entendimento futuro da justiça.

O que se espera agora é que o Dr. Bumbum, sua mãe e os outros profissionais envolvidos nos procedimentos sejam punidos exemplarmente. Devemos exigir também que todos os órgãos responsáveis pela fiscalização da saúde e do exercício profissional deem explicações para o montante de irregularidades encontradas.

Para finalizar, almejamos que o lamentável acontecimento sirva de lição para todos, pois só assim vamos evitar crimes, vítimas e que sejam paridos outros doutores Bumbuns no nosso país.

*Arruda Bastos é médico, ex-secretário da saúde do Ceará, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Movimento Médicos pela Democracia.

 

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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