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Régis Barros: Minhas reflexões sobre a eleição para presidente

Pois bem, sempre que estou angustiado com algo, eu costumo escrever alguma coisa sobre o elemento que me angustia. Não é novidade de que a situação ética e política do país e, por conseguinte, as eleições me angustiam sobremaneira. Não angustia somente a mim, mas acredito que a todos. Não há nenhum candidato que encha os nossos olhos e que consideremos um estadista com lastro técnico e moral para o cargo. Isso para mim é claro. Não sei se para você é assim também. Isso causa muita angústia, visto que, o futuro nos amedronta. No entanto, não tem jeito, dentre as opções, precisamos refletir e escolher. Não é possível se esquivar e hei, aqui, de falar o que penso.

Eu defendo a democracia. Defendo o respeito e a aceitação do diferente. Luto para que o preconceito e o ódio não prosperem. Acredito que truculência, empáfia, crueldade e perversidade andam de mãos dadas com o fascismo. Não aceito que minorias sejam achincalhadas, desprotegidas ou trucidadas a partir de um discurso falacioso de que a “maioria prevalece”. A maioria se autoarbitrando do direito de continuar o massacre contra as minorias. Francamente, isso é inadmissível! Não suporto ideias, pensamentos e comportamentos misóginos. Não admito que a população LGBT seja desdenhada ou atacada na sua dignidade. Não quero a morte daquele que pensa diferente de mim, ou seja, do meu opositor. Em face disso, não posso acatar ideias ou pessoas que insuflam isso em falas e comícios. Quem se postula ser um possível chefe de estado tem que ter a capacidade de diálogo, sobretudo com seus oponentes. Penso que não resolvemos conflitos usando “bala” ou força bruta. Não defendo que ninguém deva ser morto e não percebo que “bandido bom é bandido morto”. Eu prefiriria compreender por que temos tantos bandidos, tanta violência e tantas mortes. Quem sabe, antes de pensar em matar bandidos, devamos não produzi-los em escala elevada. Não eliminamos essa espiral somente com o embuste de ter uma arma na mão.

Nesse empobrecimento ético em que vive a nossa sociedade e que tem sua maior expressão na política, falsos messias nascem ou crescem. Então, percebo que um discurso pronto e impactante, associado a uma postura teatral, ganham espaço no imaginário de muitos. Daí, surge o evento Bolsonaro. Antes eu imagina que o fenômeno de paixão ao Bolsonaro fosse produto exclusivo da sedução por um produto fake. De fato, tem disso também. Portanto, alguns dos seus eleitores, revoltados com esse mar de lama em que vivemos, clama por mudanças. Daí, o nome dele é pensado. Infelizmente, essas pessoas não perceberam que ele, o Bolsonaro, é um produto clássico dessa política que ele tanto esperneia em atacar. Ele não é o diferente. Ele é mais do que o mesmo. No entanto, por outro lado, não há somente uma sedução fake como descrevi acima. Há também, por parte de alguns (não sei quantos), uma identificação com esse discurso fascista e nacionalista. Portanto, tais ideias, ataques e agressividades fazem todo sentido na cabeça de alguns dos seus apoiadores. Temos, de fato, uma associação ideoafetiva perfeita. Muitos eleitores de Bolsonaro apoiam o que ele prega e se lambuzam em êxtase com os diversos comportamentos agressivos dele.

Mas, e eu eleitor? O que eu farei?

Eu já me decidi!

Lutarei a todo custo para que ele não seja eleito. Para tal, resta-me, única e exclusivamente, escrever. É o que me resta. É o que me sobra. É o que gosto e posso fazer. Entendo que há um antipetismo disseminado na nossa sociedade. Parte dele nasceu em decorrência dos erros que o PT cometeu na forma de gerir a política. Costumo afirmar que tal postura foi uma apunhalada nas costas de quem acreditou no projeto do PT. Não é a toa que muitos eleitores de Bolsonaro já foram eleitores do PT. Ao fazer um discurso de combate à corrupção mantendo a mesma forma de política com o mesmo fisiologismo, o PT caiu em derrocada na aceitação da sociedade. Outro ponto interessante é que o antipetismo alcançou a níveis do inconsciente. Tem gente que não gosta do PT e nem sabe o porquê. Simplesmente, ele não gosta por ter escutado isso e vai replicando. Independente do fenômeno causador, uma coisa é certa: há no momento um antipetismo poderoso. Nessa lógico, reflito que o que manteve a proporção de votos de Lula nas pesquisas recentes não foi mais o projeto do PT, mas sim o forte nome do Lula que, independente da análise de mérito das suas questões, continuava sendo um líder forte e capaz de ter a maioria dos votos. Sem ele, o cenário muda e muda muito, visto que, sai a sua liderança e o antipetismo aparece.

Diante disso, Bolsonaro está na frente e os demais vem brigando pelo segundo lugar. Tenho esperança de que no 2o turno aconteça uma junção de forças e uma união anticonservadorista de modo que todos possam perceber o que descrevi acima. De modo que possamos nos unier, mesmo sendo diferente, contra o projeto do Bolsonaro. As primeiras pesquisas evidenciaram isso na projeção de cenários. Com exceção de Haddad (candidato do PT), todos os outros candidatos testados ganhariam de Bolsonaro no 2o turno. Possivelmente, o antipetismo superaria a própria rejeição do Bolsonaro.

Desse modo, por tudo que debati aqui, eu votarei ou no Ciro ou na Marina. Ainda estou a decidir. Nem de longe era o meu ideal de voto, mas por tudo que falei é o menos ruim. Defini isso de maneira estratégica. É a melhor frente para evitar o pior. O mundo precisa de mais tolerância e menos truculência. Precisamos de menos ódio. É isso que quero no meus país.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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