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Régis Barros: Sou cearense, sou nordestino

É um grande orgulho ser do Ceará e, por conseguinte, do Nordeste. Nessas terras, habita um povo hospitaleiro, alegre e de grande fibra. Um povo que faz piada e que oferece um humor requintado a despeito do esquecimento e das mazelas pelas quais sofre. Um povo aguerrido. Sertanejos e litorâneos lindos. Um povo que, mesmo sem muitas condições financeiras, é culto e diferenciado naquilo que se propõe. Um povo rico de cultura a qual é bem materializada na música, literatura e nas mais diversas artes. Um povo forte e que, desde sempre, vem demonstrando isso. Euclides da Cunha foi testemunha ocular disso. Segundo ele, nós, os nordestinos, “somos, antes de tudo, fortes”. E ponha fortaleza nisso. Ter que acordar e sonhar com o que comer não é uma tarefa fácil. Ter que olhar para o céu e clamar a Deus para que gotas d’água caiam não é algo aprazível. Mesmo assim, olhem para nós e percebam que o nosso sorriso é espontâneo e feliz. Somos isso! Homens e mulheres determinados e repletos de vida.

Diante dessa descrição, venho repudiar todos que, nesse momento, estão provocando e desdenhando o Nordeste e o seu povo pelo fato dessa região ter garantido o 2º turno das eleições presidenciais. Aqueles que imaginam que os votos daqui são de cabresto estão completamente alheios à realidade e enganados. As pessoas aqui pensam e lamento informar que você, que desdenhou de nós, nordestino, está equivocado. Na verdade, você, que propaga essa perversão, pode ser considerada uma pessoa desrespeitosa e que não entende nada de democracia.

Assim, poderá ser o futuro do nosso país. A segregação e a estratificação fascista vão surgindo, inicialmente, nas entrelinhas. Depois, ela toma conta de tudo. Primeiro, os nordestinos. Depois, os gays e “viadinhos”, os afrodescendentes que “pesam 7 arrobas”. Posteriormente, a mulher “vagabunda” e “ignorante”. Por fim, serei eu e quem sabe, depois de mim, será você.

Béradêro
(Chico Cesar)
Os olhos tristes da fita
Rodando no gravador
Uma moça cosendo roupa
Com a linha do equador
E a voz da santa dizendo
O que é que eu tô fazendo
Cá em cima desse andor
A tinta pinta o asfalto
Enfeita a alma motorista
É a cor na cor da cidade
Batom no lábio nortista
O olhar vê tons tão sudestes
E o beijo que vós me nordestes
Arranha céu da boca paulista
Cadeiras elétricas da baiana
Sentença que o turista cheire
E os sem amor os sem teto
Os sem paixão sem alqueire
No peito dos sem peito uma seta
E a cigana analfabeta
Lendo a mão de paulo freire
A contenteza do triste
Tristezura do contente
Vozes de faca cortando
Como o riso da serpente
São sons de sins não contudo
Pé quebrado verso mudo
Grito no hospital da gente
São sons são sons de sins
São sons são
São sons
Não contudo fé

*Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental.

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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