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Crítica: 22 de Julho. Por Márcio Bastos

Novo filme de Paul Greengrass mostra efeitos devastadores do extremismo em uma sociedade

 

Paul Greengrass dispensa apresentações. Principal comandante da franquia Bourne – dos quatro filmes, só não dirigiu o primeiro –, o diretor inglês traz ainda em seu currículo produções como Voo United 93 e Capitão Phillips, ambos filmes baseados em fatos que retratam tragédias humanas recentes de nossa história. Sempre imprimindo muito vigor em seus trabalhos, Greengrass é conhecido por suas câmeras inquietas, que buscam aproximar a história retratada de uma experiência quase documental. Marca que, por sinal, foi fundamental para emplacar os filmes de Jason Bourne, dando um novo fôlego ao gênero de espionagem.

Por trazer essas características, não é surpresa que o diretor tenha escolhido 22 de Julho como seu mais novo projeto. Produção original da Netflix, o filme acompanha o episódio ocorrido em 2011 na Noruega, quando um terrorista de nome Anders Behring Breivik, motivado por ideologias políticas, planejou um atentado que culminou na explosão de uma bomba em um prédio do Governo e, horas depois, um ataque a um acampamento na ilha de Utoya, onde covardemente matou a tiros 77 pessoas, em sua maioria adolescentes integrantes do Partido Trabalhista norueguês.

Dividido em dois momentos, o filme concentra todo seu início no atentado. Nesse recorte, Greengrass coloca em prática suas principais habilidades como cineasta, fazendo-nos sentir o mais próximo possível o horror do episódio. Aqui ficamos um pouco perdidos sobre quem são os protagonistas, o que, certamente, foi uma decisão consciente do diretor. Ele evita o aprofundamento de personagens, optando por passear com sua câmera para nos dar uma visão panorâmica da tragédia. Breivik abate friamente as vítimas uma a uma e os olhos do diretor não nos poupam de ver o desespero que tomou conta da ilha.

Depois do intenso ato inicial, entramos em outro momento do filme, onde somos levados a observar os motivos e consequências do atentado. A partir daí, encaramos a história sob alguns pontos de vista. Um deles é o do próprio terrorista, interpretado de forma convincente pelo ator Anders Danielsen Lie, que é submetido a julgamento e revela suas motivações, posicionando-se como um militante conservador de extrema direita que cometeu tais atrocidades, segundo ele, em defesa da nação, contra a miscigenação cultural e a aceitação de imigrantes em seu país. O roteiro é feliz ao propor uma lente mais aproximada do personagem, permitindo que o espectador possa presenciar de perto, e lamentar, por ver como algumas correntes de pensamento ganham adeptos convictos que, em defesa do que acreditam, ignoram completamente a vida humana.

Como grande contraponto à história de Breivik, Viljar Hanssen, um dos jovens noruegueses que sobreviveu por milagre ao atentado, é quem ganha maior destaque. Diante de um cartaz escrito “Por todos, não por poucos”, logo no início do filme o personagem tem uma fala em que expõe suas ideias sobre o que pensa dos imigrantes em seu país. Mesmo entendendo que a política migratória é um assunto complexo, ele se mantém fiel às suas crenças de que a Noruega não deve dar as costas para estrangeiros. Sem entrar no campo do debate, o filme sugere apenas a reflexão sobre o tema, que pode ser estendida não apenas aos imigrantes mas todas as minorias que sofrem algum tipo de segregação na sociedade.

Na pele de Viljar, o ator Jonas Strand Gravli aproveita bem cada momento em que está em cena. Conseguimos nos identificar com a dor do personagem, que busca encontrar um sentido e recomeçar depois de passar pela maior tragédia de sua vida. Chamado para dar seu testemunho no tribunal, ele tem ainda que enfrentar mais um enorme desafio, que é o de encarar de frente o principal responsável por todo o seu sofrimento. Até lá vemos sua luta, e suas recaídas, no processo para tentar colocar a vida nos eixos.

Completando o elenco de personagens que ganham destaque, a história abre espaço para mostrar um pouco do cotidiano de Geir Lippestad (Jon Oigarden), advogado escolhido pelo próprio Breivik para defendê-lo. Sem desenvolver satisfatoriamente sua história, acabamos não entendendo bem o motivo pelo qual o advogado aceitou o caso. Especialmente por, diante de ameaças, colocar em risco a vida da própria família. Outra esfera que o roteiro tenta explorar é a do Governo do país, revelando como o Primeiro-Ministro lidou com o episódio. Esta, mais parecendo desculpa para mostrar que o filme também trouxe esse contexto, limita-se apenas a intercalar cenas de um Primeiro-Ministro aparentemente perdido diante da situação.

Mesmo com alguns escorregões em seu desenvolvimento, 22 de Julho acerta em cheio na mensagem. O entendimento de que nenhuma ideologia deve questionar a preservação da vida humana precisa sempre ser o óbvio. Ao expor os riscos da intolerância, Greengrass reitera isso, fazendo um filme necessário, que merece ser visto e refletido para que a lucidez coletiva, nesse sentido, nunca deixe de prevalecer.

Texto publicado originalmente no site www.cosmonerd.com.br.

Márcio Bastos
Redator publicitário, graduado em Letras e devorador de filmes e séries desde menino véi.

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