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Do penico à bomba atômica. Por Arruda Bastos

Em uma bela tarde de domingo, ao olhar meu celular, observei uma chamada do querido colega médico e escritor de renome, Marcelo Gurgel. Ao atender a sua ligação, com a educação de sempre ele falou do seu próximo livro e me convidou a escrever uma crônica para compor sua obra que se destina a abordar temas ligados à caserna, focando causos ou situações curiosas.

Marcelo Gurgel é o Presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores do Ceará e, com muita honra, ocupo na sua diretoria a posição de Vice-Presidente. Temos uma longa história de amizade: fomos contemporâneos de faculdade e meu primeiro estágio como acadêmico foi de coletor de dados do Registro de Câncer, na década de 1970, entidade dirigida na época por ele.

Depois nos encontramos em diversas instâncias da vida profissional, principalmente no Instituto do Câncer do Ceará, por aproximadamente trinta anos, e durante a minha gestão como Secretário da Saúde do Estado. Acredito que a nossa amizade e a minha atividade por quatro décadas no Hospital da Policia Militar (HPM) tenham motivado o seu pedido.

O certo é que a responsabilidade de participar do seu livro fez com que naquela noite eu tivesse insônia com o pensamento voltado para minha crônica, pois, devido aos longos anos no HPM, e sendo detentor de muitas lembranças da instituição, selecionar uma relevante não seria fácil. Fiquei a meditar e peguei, depois, no sono.

Ao acordar, de imediato passei a lembrar de um sonho daquela noite. Ele me pareceu tão real que fui pesquisar no meu computador a crônica que, dormindo, pensava ter passado a noite a escrever. Infelizmente, não passou mesmo de uma ilusão, pois não encontrei vestígios sequer de uma linha do que julgava ter escrito.

Com o passar do tempo, recordando detalhes do sonho e principalmente da crônica escrita enquanto dormia, o título me veio à cabeça: “Do penico à bomba atômica”. Com esse mote, resolvi, então, escrever, agora acordado, acerca de um acontecimento que marcou muito a minha vida na caserna do HPM e que foi determinante para a sua continuidade.

O hospital é antigo: a sua criação remonta ao Decreto nº 527, de 1º de abril de 1939. Com o nome de Hospital Central da Polícia Militar do Ceará, o governador da época, Francisco Menezes Pimentel, e o Comandante Geral da Polícia, o Coronel Djalma Byman, foram os responsáveis pelo seu funcionamento.

Minha relação com a Polícia Militar e o seu Hospital é também antiga, vem dos anos 1970, ainda no tempo de estudante do 4º ano de Medicina. Na época, passei a frequentar assiduamente suas enfermarias e os plantões da emergência. Posteriormente, concursado, fui lá lotado e só saí de lá por ocasião da minha aposentadoria no ano passado, e a contragosto, fustigado com a possibilidade da reforma da previdência do governo Temer.

Desde cedo, adaptei-me ao regime militar e à forma de saudar com continência os militares, e também à forma deste fardado saudar um civil, como cortesia, além do aperto de mão. Aprendi, na época, que a continência era uma reminiscência dos combatentes medievais que, quando de armaduras, levavam a mão à têmpora direita para suspender a viseira, permitindo sua identificação. Caserna também é cultura.

Recordo de muitas passagens e, principalmente, do convívio com grandes nomes da medicina cearense: Lino Antônio, Cândido Pinheiro, José Roosevelt Luna, Gilbert Angelim, Luiz Porto, José Ramon Pinheiro e outros ilustres profissionais. Na direção, convivi com os competentes coronéis Átila Nogueira, Luciano Arruda, José Maria, Clínio Oliveira, entre outros e, por último, com Silvana Sátiro, a única não pé-preto.

Não posso esquecer também das funcionárias que, durante anos a fio, trabalharam comigo no serviço de prevenção de câncer do hospital, setor que comandei por trinta anos: minhas atendentes Maria Julia, Dona Senhora e Madalena, além da Enfermeira-Chefe, Célia Barroso, e demais servidores de todas as patentes e níveis.

Só tenho a agradecer os ensinamentos e a convivência fraterna com todos, em uma época muito importante para a minha formação como médico, gestor e cidadão. Mas meus leitores devem estar intrigados com essa crônica, o que tem ela a ver mesmo com o penico e a bomba atômica. Calma que eu vou começar a explicar.

O HPM, durante os seus quase 70 anos, nunca tinha passado por tanta dificuldade financeira e estrutural como na primeira década dos anos 2000. Alguns setores deixaram de funcionar e outros caminhavam para o mesmo fim. Em 2010, coloquei, então, como uma das minhas metas na SESA encaminhar uma solução para a situação precária do Hospital.

O governador foi sensível e, atendendo ao meu apelo, marcou uma visita à instituição. No dia aprazado, fomos recebidos pelo Diretor, o Comandante da Polícia e uma representação de oficiais. Durante a visitação, os militares informavam que ali era realizado de tudo e um sem número de procedimentos. Tudo para impressionar o maior mandatário do Estado.

Em reunião no mesmo dia, eles solicitaram a realização de concurso para o quadro da saúde e investimentos. O governador respondeu que disponibilizaria dez milhões de reais, mas não ampliaria o número de servidores. Depois disse que o hospital tinha que ter foco e não funcionaria mais como se fabricasse “do penico à bomba atômica”.

Outra determinação foi transferir a gestão do hospital da Polícia Militar para a Saúde. Digo que os militares não ficaram nada satisfeitos com a reunião, mas, com o passar do tempo e com muita diplomacia, conseguimos êxito. Em 30 de maio de 2011, com o nome de Hospital e Maternidade José Martiniano de Alencar, que é o patrono da Polícia Militar, o Decreto nº 30.554 sacramentou a transferência para a Sesa.

Hoje, o Hospital é um dos melhores da rede pública estadual contando com muitos serviços especializados, centro de imagem com tomografia, setor de cirurgia de ponta, maternidade de última geração, instalações modernas e confortáveis. Podemos dizer que atualmente ele não produz mais “penicos”, só mesmo “bombas atômicas”.

Para concluir, digo que a todos bato continência e espero que meu querido amigo Marcelo Gurgel compreenda, mas não poderia perder a oportunidade de escrever no seu exitoso livro acerca de uma das grandes alegrias da minha vida, que foi conviver por tanto tempo com civis e militares, bem como ajudar na perpetuação da instituição.

Arruda Bastos é médico, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e ex-secretário da saúde do Ceará.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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