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O Leão e o meu Vozão na primeira divisão. Por Arruda Bastos

Nunca pensei em escrever uma crônica para louvar o Leão, maior rival do meu Vozão e um dos responsáveis por momentos de tristeza e frustração, principalmente no meu tempo de criança e adolescente. Naquela época, eu não perdia um jogo do Ceará no Estádio Presidente Vargas – PV, mesmo que fosse contra times menores ou de pouca expressão, e que até já não existem mais, ou que não participam do nosso campeonato como o Nacional, o América e o Calouros do Ar.

Entretanto, o Clássico Rei era a emoção principal e, de 1964 até o ano 1979, quando me formei em medicina na UFC, não perdi nenhum; depois não acompanhava mais com tanta assiduidade. Lembro da charanga do Gumercindo tocando galhardamente quando perdíamos o clássico e dos gols do Croinha, um grande artilheiro tricolor da época, contra o meu Vozão. Recordo também da minha emoção com os gols do Gildo e dos títulos conquistados em cima do Leão.

Meu pai, de saudosa memória, embora não torcesse pelo Fortaleza, até mesmo porque minha mãe tinha voz altiva e era alvinegra, detinha um título de sócio proprietário do nosso maior rival. Ele, por muitos anos, nas manhãs de domingo, tinha o hábito de nos levar ao Pici, para a sede do Fortaleza, onde passávamos o dia a brincar na quadra e tomar banho na piscina do Clube. Nesse período, tirando a praia em frente ao Alfredo da Peixada, era nossa diversão de menino.

Acredito que o destino conspirou e, para não virarmos tricolores, um querido tio e meu padrinho de batismo, Olintho Arruda, que chamávamos carinhosamente de Tio Quelé, veio morar vizinho a nossa casa da Av. João Pessoa. Ele era um torcedor dos mais aguerridos do caçador de leão e até ocupou, durante um período, o posto de Diretor do clube; e foi na sua companhia e dos seus filhos, Adelino e Assis, que fui ao primeiro jogo de futebol na minha vida.

Estávamos em 1964 e o Ceará e Náutico decidiam quem seria o representante do Nordeste na fase final da Taça Brasil, o Brasileirão da época. Os pernambucanos do Náutico eram chamados de “Os Intocáveis”, por conta do domínio que exerciam no futebol regional e também estavam invictos há cerca de um ano. O time de Nado, Nino, Bita e Lala havia goleado o Ceará por 3 a 0 nos Aflitos e jogava pelo empate no PV.

O Ceará tinha uma equipe forte, com jogadores como Aloísio Linhares, Mauro Calixto, Carlito, Alexandre Nepomuceno e Gildo, e não se deu por vencido: com o PV lotado e com a minha presença, deu o troco no Timbu. O Ceará venceu por 1 a 0 com gol de Gildo, forçando a partida de volta no mesmo PV. Na outra contenda, dois dias depois, o Vovô goleou “Os Intocáveis” por 4 a 0. Foi aí que me tornei um alvinegro convicto.

Para os mais jovens que não viveram esses momentos áureos do nosso futebol, em que Fortaleza e Ceará eram destaques em nível nacional, digo que recordo também de jogos inesquecíveis e dos gols de Sergio Alves, o carrasco tricolor, e de Magno Alves, bem como dos belos gols do Capetinha tricolor Clodoaldo, e Rinaldo, entre outros artilheiros dos dois clubes.

Todavia, minha crônica de hoje não é para falar do Vozão, mas sim para parabenizar os dirigentes, os jogadores e os amigos torcedores do Tricolor de Aço do Pici pela bela conquista, pela estupenda campanha e pelo seu acesso antecipado à primeira divisão do campeonato brasileiro. Sou um democrata e até mesmo no futebol sei reconhecer os méritos de quem merece.

Aqui em casa, dos quatro filhos, dos três genros, uma nora e três netos, tenho dois tricolores: minha querida esposa Marcilia e meu genro Raul Silveira que devido a sua grande paixão e de toda a sua família pelo Leão e seu amor a minha filha Lilia, que é alvinegra, vale por mil. Espero, sinceramente, que em 2019 os torcedores dos dois maiores times do nosso futebol possam conviver pacificamente torcendo em paz pelos seus clubes do coração, com respeito e cordialidade. Parabéns ao futebol cearense!

Arruda Bastos é médico, professor universitário, membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e um amante do bom futebol.

Arruda Bastos
Médico, professor universitário dos cursos de Medicina e Enfermagem, especialista em Gestão em Saúde e Saúde Pública, escritor, radialista, ex-Secretário da Saúde do Estado do Ceará e coordenador do Movimento Médicos pela Democracia.
http://www.portalarrudabastos.com.br

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