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Mário Mamede: O perdão também cansa de perdoar

Em 1999, ao estagiar por três meses no Hospital de Ortopedia Frank País em Cuba, recebi de seu corpo profissional um tratamento com muito respeito e afeto. Vivi a rica experiência de conhecer o Sistema de Saúde Cubano e ter uma percepção mais aguçada da alma deste povo.

Anos depois, em 2013, por ocasião da implantação do programa Mais Médicos, assisti estarrecido a lamentável cena protagonizada por algumas pessoas formadas em Medicina, sob a equivocada liderança de uma sindicalista anacrônica, de agressão aos médicos e médicas cubanos, chamados de macacos e escravos. Lamentável foi o posicionamento oficial das instituições médicas, sem exceção, que se omitiram diante de tais acontecimentos. Não me consta que algum deles tenha sido processado por racismo.

Garantindo assistência a cerca de 40 milhões de pessoas, o programa se fez presente em áreas risco e de difícil acesso, aonde muitos dos médicos brasileiros não aceitaram atuar. O maior edital do Ministério da Saúde para médicos conseguiu chegar tão somente a 3 mil profissionais brasileiros, muito aquém dos 11 mil necessários à cobertura da atenção básica.

Ao longo desses anos, os cubanos foram vítimas de todo tipo de preconceito e discriminação por parte de médicos brasileiros. Quando atuei na disciplina de Introdução à Pratica Médica (UFC) conheci uma médica cubana numa unidade de saúde no Pirambú. Ela disse gostar do trabalho, falou do reconhecimento dos seus pacientes, mas a incomodava bastante não ser cumprimentada por nenhum dos colegas médicos e que se comunicava com o coordenador da unidade apenas por escrito.

O presidente eleito, absolutamente ignorante em política de saúde, quer impor aos médicos cubanos, ao governo de Cuba e à Opas novas condições contratuais que ferem a dignidade destes profissionais, a autonomia do Estado cubano e a chancela da Opas. Ninguém é obrigado a aceitar humilhações!

O sentimento pátrio à solidariedade e a dignidade do povo cubano lhes são valores muito caros. No Brasil, em especial, os médicos que fizeram a opção pelo “mito”, não conseguem entender o significado desses valores. Os cubanos certamente perdoaram as humilhações sofridas ao chegarem, mas, agora, basta. “O perdão também cansa de perdoar”, nos ensinou Vinícius de Moraes.

Mário Mamede é médico, ex-deputado estadual e membro do movimento Médicos pela Democracia.

pab

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