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Régis Barros: Por detrás dos guarda-chuvas

Sempre que, numa operação policial, alguém é alvejado por estar com um guarda-chuva, que foi confundido como fuzil, há uma mensagem subliminar. Nesse momento, as discussões costumam pairar na superficialidade. Os clichês borbulham e tendem ao senso comum. Os discursos dizem: “quem porta um fuzil precisa ser abatido, pois é uma ameaça”. É verdade! Quem porta um fuzil não deseja crismar alguém. Mas, estou perguntando sobre o significado de quando um balaço acerta alguém, que vive numa comunidade carente, e que estava com um guarda-chuva na mão.

Podemos até não querer falar sobre isso. É um direito de todos, todavia existe uma hermenêutica nesses equívocos. É praticamente impossível que eu (médico e branco) seja alvejado quando estiver com tais objetos em punho. Usando os mesmos clichês, alguns responderiam assim: “claro, você nunca estaria se portando de forma suspeita”. E desde quando portar um guarda-chuva faz de alguém um ser suspeito?

A verdade é uma só – por detrás do guarda-chuva há uma representação social. Como dito pelo Rappa: “todo camburão tem um pouco de navio negreiro”. O tiro que mata o senhor negro e pobre que carrega um guarda-chuva não é um tiro de fuzil, mas sim uma munição da verdade nua e crua da nossa dissonância social. Ela mostra as diferenças. Ela afirma questões históricas. Daí, outro clichê aparece: “isso é papo de comunista”. Como se essas verdades fossem criações apenas de quem enxerga “à esquerda”. A verdade dói. Por isso, há toda essa celeuma quando se toca nessa covardia social que, diga-se de passagem, é relativizada e racionalizada pela sociedade.

Agora, o Estado dará carta branca para que os alvos suspeitos sejam alvejados. Seria a forma do Estado “atacar a violência” e ofertar uma resposta aos votantes do último pleito. Isso, por si só, findará a violência? Eu não saberia dizer. Temo, inclusive, que a resposta da marginalidade seja na mesma proporcionalidade. E os erros? O que fazer com os que serão confundidos? Possivelmente, o Estado lamentará, mas dirá que faz parte da guerra. Segue a vida até por que quem morreu mora nessas comunidades ou morros.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em Saúde Mental pela FMRP-USP

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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