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Régis Barros: Um salve à loucura

Em tempos sofridos como esse, recorri à loucura para poder me aliviar e quem sabe para me trazer respostas de conforto. Pois bem, para isso, mergulhei cada vez mais no Elogio da Loucura, livro clássico de Erasmo de Rotterdam. Somente a loucura poderia iluminar essa escuridão que me assolou no dia de hoje. Esse é um livro a ser lido por diversas vezes. Um livro a ser degustado em vários momentos, sobretudo momentos iguais a esse. A partir dele, podemos entender que a loucura é fundamental e que ela é capaz de nos ofertar felicidade bem como ímpeto pela vida. Quem não a enamora acaba por não viver, mas sim sobreviver. Desse modo, a loucura nos diz que, para conhecer as coisas e para encará-las, deveremos vencer duas forças – a vergonha e o temor. Segundo a loucura, “a vergonha, que ofusca a alma, e o temor, que lhe mostra o perigo, desvia-nos de empreender grandes ações”. E o momento atual do nosso país obriga-nos a agir. Na verdade, o poder vigente quer nos envergonhar com ataques a nossa essência e a nossa visão de mundo. Querem também nos impor temor e medo com o uso da força e da truculência. No entanto, a minha voz não calará. Em hipótese alguma, ela calará. A “loucura” dialogou comigo e devo continuar a falar, a escrever e a me unir aos que também compartilham dessa mesma loucura. Desse modo, não esperem vergonha ou temor provenientes de mim. Pelo contrário, não há vergonha ao defender uma pauta humana, social, pacífica e de acolhimento da diversidade em todas as suas formas. Também, não há o que temer, pois esse temor freia somente os “normais” que são submissos e vencidos por uma razão mentirosa. Em mim, há resistência e não subserviência. Essa “loucura” coloca-me no lado oposto do padrão conservador coroado no dia de hoje. Não aceitar estaticamente essa pauta segregaria e de desconstrução dos mais desfavorecidos faz de mim um “louco”. Um louco que escuta a loucura de Erasmo de Rotterdam e que diz, conforme o próprio livro: “que renuncia a tudo que soe como vergonha ou temor”.

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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