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Régis Barros: Não foi acidente

Não foi acidente! O que aconteceu em Minas Gerais não foi ao acaso. Acidente é quando o inesperado dá as cartas. É quando não temos controle ou quando não há indícios do desfecho negativo. Aquilo que aconteceu em Brumadinho foi crime. As pessoas foram mortas pela ganância das mineradoras, pela inércia histórica do poder público e pela ineficiência do Estado brasileiro. Pelo que assisti e li, já havia indícios de que isso estava prestes a acontecer. Tragédias desse tipo só acontecem de maneira repetida por aqui. A falta de seriedade é tão grande que as vítimas de Mariana não receberam, sequer, alguma indenização. Agora, infelizmente, nós teremos centenas de mortos. Estão usando equivocadamente os termos. Por mais que eu entenda o uso dos vocábulos “tragédia” e “desastre”, entendo que o termo melhor a ser utilizado seria assassinato. Homens, mulheres e, talvez, crianças foram assassinados. Pais, mães e filhos foram assassinados. Brasileiros foram assassinados cretinamente dentro do próprio Estado Brasileiro o qual é incompetente para tudo, inclusive, para fiscalizar, punir e coibir coisas desse tipo. Isso é histórico. Sai governo e entra governo e tudo se repete. Vidas foram perdidas. Histórias foram rompidas. Famílias foram despedaçadas. Até agora, quase 300 pessoas desaparecidas. Imaginem a dor dos seus entes queridos! Imaginem a dor daqueles que amam os que, provavelmente, foram mortos. Quero estar errado e acreditar em milagres, porém, dolorosamente, o mais provável é que a luta seja para encontrar os corpos. E o mais surreal é perceber que, depois de Mariana, ninguém foi preso. É bem possível que ninguém seja preso de novo. O rompimento dessas barreiras, as ondas de água e lama que invadiram tudo e o cheiro de morte provam o quão o Estado Brasileiro desrespeita e não protege seu povo. Um dia triste. Queria poder ativamente ajudar. Queria poder atender gratuitamente os familiares dos falecidos e os sobreviventes. Eles precisaram de apoio e de suporte psiquiátrico e psicológico. Assassinatos coletivos como esse ficam marcados por toda a existência. Um dia de luto e um dia para chorar…

Régis Eric Maia Barros é médico psiquiatra, mestre e doutor em saúde mental

Régis Eric Maia Barros
Médico psiquiatra, Mestre e doutor em saúde mental pela FMRP-USP e membro do Movimento Médicos pela Democracia.

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