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Joan Edesson: Os justiceiros substituem a justiça

A prisão de Michel Temer parece agradar a muita gente. Há os justiceiros de plantão, movidos pela sanha punitivista, que aplaudem todos os encarceramentos, indistintamente, e que acreditam piamente ser puros, limpos, honestos. Os “outros” são sempre culpados e, portanto, merecem a expiação e a execração pública.

Há, por outro lado, gente boa, que aplaude a prisão de Temer movida por um sentimento de vingança, enxergando nesta prisão uma espécie de “justiça”, depois que Michel deixou cair a máscara e se revelou um Silvério dos Reis no processo de derrubada de Dilma Rousseff.

A questão que se coloca para nós é refletir um pouco.

Temer praticava malfeitos há décadas. Por que ele foi preso exatamente agora?

Qual foi a fundamentação legal para a sua prisão?

A quem interessa a sua prisão neste momento, quem é beneficiado com ela?

O que temos que pensar é que, quando um personagem poderoso como Temer é preso, mesmo que não haja um sólido fundamento legal para a sua prisão, nenhum de nós estará a salvo.

Se prendem o Temer sem respeitar o devido processo legal, o que farão comigo, um zé ninguém no interior de uma província sertaneja?

Confesso a vocês, escrevo cada vez com mais medo. Tenho, como o Riobaldo do mestre Guimarães Rosa, aprendido a cada dia uma qualidade nova de medo. Estou com medo de escrever e de falar qualquer coisa sobre procuradores e juízes. Aqueles em quem deveríamos enxergar a justiça, são cada vez mais “justiceiros”, uma espécie de milicianos togados.

Grupos de juízes e procuradores investem cada vez mais contra a “política”, considerando-se os únicos possuidores da virtude. Atropelam a lei em nome das suas convicções, ignoram o estado democrático de direito em nome de um “bem maior”, definido por eles próprios. Sem que tenham tido um voto sequer, consideram-se porta-vozes da vontade popular. Aliás, a vontade popular é usada cada vez mais para justificar a vontade destes pequenos grupos.

A sanha justiceira não respeita sequer o espírito de corpo. Se o próprio Supremo Tribunal Federal ousar ficar no caminho de alguns desses grupos, será atropelado por eles. Há quem diga que a prisão de Temer foi, na verdade, um recado direto ao STF. Se assim o é, a democracia brasileira está jurada de morte.

Há um setor do judiciário, o tal do partido da lava jato, que já não consegue disfarçar o seu desejo de usar um modelito dos anos de 1920, 1930, a sua vontade de cultivar um bigodinho alemão, o cabelinho levemente despenteado de lado.

Ou tornamos a frente ampla uma realidade, ou entendemos a necessidade de que esta frente seja realmente “ampla”, ou seremos todos levados de roldão pela vaga udenista que ameaça destruir a democracia brasileira.

O que se coloca para nós hoje é a unidade de amplas forças ou a derrota frente a um adversário que flerta abertamente e cada vez mais com o arbítrio e com o autoritarismo.

*Joan Edesson de Oliveira é educador, mestre em educação brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

Joan Edesson de Oliveira
Educador, Mestre em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

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